Os Sete Rebeldes: a obra-prima de Okamoto que critica o ideal samurai
Atenção! Não confundir esse clássico com o outro premiado (Os Sete Samurais). Os Sete Rebeldes (Kiru, no original) é o ápice da carreira de Kihachi Okamoto, que traz uma excelente parceria com Tatsuya Nakadai. Fortemente inspirado nos bang-bang “spaghetti”, Os Sete Rebeldes nos mostra a ideia de trazer leveza numa trama conspiratória que visa o derramamento de sangue.
Sim! Temos muitos momentos em que os combates (presentes desde o início do filme) são inevitáveis. Mas temos momentos de humor leve que ameniza a situação, fazendo com que nos encantemos com o que é apresentado nesta obra do cinema japonês.
Okamoto-san foi um diretor bem respeitado para a sua época. Vemos isso no modo como ele conduziu esse filme, respeitando o espectador sedento por uma trama que remete a tradição dos chambaras contemporâneos. Ele já tinha acertado em A Espada da Maldição. Aqui ele também acerta.
Embora os personagens centrais tenham sido samurais, no filme, ele despreza a classe guerreira. Em vários momentos, o roteiro sugere que não valia a pena ser um samurai no século XIX. A história se passa no ano de 1833. Mesmo com alguns momentos de humor (é impossível não se simpatizar com o envolvimento dos dois protagonistas com uma galinha), o filme carrega esse tom crítico para o estilo de vida do guerreiro. Essa crítica é válida.
A crítica de Okamoto ao sistema dos samurais
Antes das fatídicas bombas em Hiroshima e Nagasaki, o orgulho nacionalista fazia com que muitos japoneses não dessem valor a vida, fato comprovado pela história do país, onde atos contra a Lealdade e a Honra aos superiores eram punidos com o seppuku (harakiri) e o amor era um sentimento banal. Assim era o jeito de ser dos samurais. Matar e morrer sem levar as consequências adiante.
Mas a época do filme se passava às vésperas da eclosão da Revolução Meiji. Embora o orgulho nacionalista ainda estivesse presente, a classe guerreira foi suprimida até ser extinta. A partir desse momento, a política nacional japonesa prezou pelo bem estar do seu povo para se tornar uma das maiores nações do mundo.
Após a derrota do país na Segunda Guerra, extinguiu-se a figura divina do Imperador e projetou-se em dar valor à vida dos cidadãos japoneses. Não era mais necessário morrer pelo país. Por isso que a crítica de Okamoto ao sistema nacional se tornou válida. O Japão se tornou essa potência por valorizar a Vida, não a Morte. E vimos isso em várias falas de Genta, brilhantemente interpretado por Tatsuya Nakadai.
No filme, o ex-samurai faz questão de dizer que não deseja mais matar e nem morrer. Prefere viver. E ele faz questão de encucar essa ideia no novo amigo Hanjiro Tabata, interpretado por Etsuji Takahashi. Genta repete o tempo todo para Hanjiro “não queira ser um samurai”. E isso é válido. A química entre os dois atores é excelente, embora Takahashi-san tenha abusado de caras e bocas para dar o tom cômico que o personagem pede e Nakadai-san seja o mais sereno possível, sendo um personagem tão carismático como o do filme Harakiri (1963). Isso só mostra a grandiosidade desse ator em cena.
Personagens centrais e a química entre Nakadai e Takahashi
O filme é bem tradicional. Mostrou costumes comuns para a época retratada. Uma das melhores cenas do filme foi a partida do jogo de Hanafuda entre o personagem de Nakadai e o monge do templo Shimpo. Eu, que comprei as cartas para aprender a jogar, fiquei prestando atenção.
Vemos também o costume da venda de filhas de camponeses para bordéis tão comuns no Japão da época para saldar dívidas da família. Era um costume doloroso para as moças, mas cumpridas com exatidão. Sentimos o olhar melancólico da jovem Oyo, interpretada pela Tamura Nami, que sofreu muito no filme. Hoshi Yuriko, que deu vida a desafortunada Chino, também demonstrou exatidão nos sentimentos em vida para a amarga personagem. Praticamente, a presença feminina se resumiu a essas duas personagens, marcando uma trajetória exemplar em cena.

Trama conspiratória e o papel dos sete rebeldes
O filme mostrou outros personagens marcantes. A trama girou em torno da conspiração Ayuzawa Tamiya, que queria tentar uma usurpação no cargo do seu tio e foi descoberto por 7 guerreiros. Ou seja, a trama visa mostrar a tentativa de Ayuzawa em eliminar seus inimigos. Mas ele não contava com a astúcia de Genta.
Nesse ponto, o olhar sóbrio que Nakadai deu ao Genta foi ótimo. Ele conseguia passar serenidade enquanto arquitetava seus planos para poupar os sete rebeldes do título. Ainda sobre o título no Ocidente, foi uma tentativa de pegar carona no sucesso do consagrado Os Sete Samurais. Mas o filme não tem nenhuma referência ao clássico de 1954.
Nem mesmo os “sete rebeldes” do filme tiveram tanto destaque para virarem título do filme. Os kanjis para o nome original do filme (“Kiru”) quer dizer “vestir” ou “vestir-se”. Isso é até mais válido porque muitos personagens usam o artifício do disfarce para se locomover em cena. E quando falo de disfarce, não só de figurino, mas de função também. E isso nós vimos muito no filme em si.
Trilha sonora e influências do faroeste spaghetti
Falando sobre a influência dos bang-bang italianos, encontramos uma forte inspiração deles na trilha sonora composta por Sato Masaru. É fácil notar a presença ocidental na trilha sonora. Na minha concepção subjetiva, considero isso uma afronta ao tradicional. Não precisava recorrer ao estilo ocidental para compor a trilha.
Mas, entendo que foi uma tentativa de flertar com o público ocidental que estava consumindo esse tipo de cinema. Para a minha alegria, encontramos também músicas no estilo tradicional japonês, tocadas com shamisen, sakuhachi e taiko nas cenas dos festivais. Seria ilógico também botar músicas com estilo ocidental nesse tipo de cena.
A cenografia contou com o trabalho de Akune Iwao. Acredito que esse detalhe, além do roteiro, é essencial para deixar o espectador absorto na temática do filme. Para quem gosta de se sentir no Japão dos Samurais, é muito importante e necessário o trabalho da direção de arte. Trazer cenários que combinam com o tema do filme exige toda uma preparação e um trabalho minucioso.
E isso se faz presente tanto no cenário externo, que tinha todo o cuidado de não mostrar sombras dos arredores dos estúdios Toho com as crescentes metrópoles da época, como nos cenários internos. Apesar de não serem cenários esteticamente belos, não deixam de ser convincentes. Afinal, nem tudo no Japão dos samurais era belo.
Cenários e direção de arte na imersão do espectador
Os Sete Rebeldes é um filme que prezou pela ação e com o propósito de enriquecer o portfólio de Okamoto-san. E foi o espectador sedento por ver samurais em ação que saíram premiados. O filme não chega a ser um dos melhores filmes chambaras que eu vi, mas, mesmo assim, é excelente e vale a pena ser visto sempre que puder, com o propósito de mostrar que vale a pena viver, não morrer por nada. E você que for assistir, espero que goste e venha aprender lições valiosas que o cinema japonês tem pra oferecer.
Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



