A Lança Ensanguentada: lirismo e crítica em clássico de Uchida Tomu
“A Lança Ensanguentada” conta as aventuras de um samurai e seus dois vassalos passando pela estrada Tokaido para levar uma lança.
Depois de anos afastados das produções japonesas, Uchida Tomu retorna para a Toei para refazer um remake de um clássico de 1927 chamado Chiyari Fuji, que ficou conhecido em terras tupiniquins como “A Lança Ensanguentada”. O filme é um jidageiki atípico, por mostrar mais situações do cotidiano do Japão do século XVIII do que embates de espadas.
O diretor, que ficou recluso na China por mais de 8 anos, nos presenteou com um filme cheio de lirismo, onde usa os personagens para criticar o sistema hierárquico tão comum no Japão da época (e que, inconscientemente, se faz presente no Japão atual).
A viagem pela estrada Tokaido
Aqui, vemos um jovem e nobre samurai viajando para Edo (atual Tóquio) com dois vassalos a mando do Shogun, um costume da época. Nobres samurais e daimiyos tinham que fazer uma viagem peregrina para a capital militar do Japão (Edo) para se apresentarem ao Shogun em determinadas épocas.
Isso fazia parte de um estratagema militar para evitar revoltas. E o principal canal que ligava os principais centros urbanos à cidade de Edo era a estrada de Tokaido. Nessa estrada, os nossos protagonistas encontram diversos tipos de personagens que enriquecem a narrativa.
A versatilidade de Uchida Tomu
Para entendermos essa narrativa, é importante analisarmos a versatilidade do diretor. Uchida foi um diretor bem versátil e que prezava pelo lado humano de acordo com a época da película. Ele soube misturar elementos do cinema Japonês com o cinema Ocidental com maestria.
É interessante ver que o diretor flerta também ao pegar elementos do teatro kabuki para compor alguns momentos (como na bela cena do festival). Do cinema Ocidental, o diretor pegou elementos melodramáticos e alguns momentos de humor insossos para dar leveza ao filme. O filme nos presenteia com bons momentos de cultura da época. É um tipo de filme que chamamos também de “road-movie”, onde os principais eventos da narrativa ocorrem na estrada por onde nossos personagens passam.
Vale ressaltar que não teve protagonista propriamente dito. Cada momento do roteiro de Kintaro Miura foi focado em núcleos de personagens diferentes. O elenco contou com uma química que fazia com que cada artista transitasse por cada núcleo. Como a ideia era fazer com que cada personagem tivesse importância em cena, então o diretor usou e abusou do conjunto do elenco.
E o mais interessante foi o aproveitamento de todos em tempo de tela, inclusive crianças e mulheres, visto que, na década de 1950, esses tipos de filmes “não permitiam” a presença delas no elenco, já que Jigadeiki (ou chambaras) eram filmes majoritariamente dedicados ao público masculino (na teoria, mas na prática, são outros quinhentos). O elenco contou com a presença do veterano Chiezo Kataoka, que atuou ao lado dos filhos Kato Daisuke e Eijiro Kataoka Eijiro. Os principais nomes femininos foram atendidos por Tashiro Yuriko e Kitagawa Chizuru. Mas todos os artistas contribuíram para a beleza do filme.

Crítica à hierarquia social
Apesar de alguns bons momentos de humor, o foco do filme era mostrar o drama das pessoas do Japão da época. Como mencionado no início, o diretor criticou alguns costumes banais dos japoneses da época feudal que poderiam ser abolidos se pregassem o amor à vida. A questão da hierarquia, por exemplo, foi um desses costumes. Era inadmissível que a figura de um Samurai confraternizar com um vassalo. Mas o filme não mostrou a imponência da figura do Samurai.
Aliás, a figura do Samurai ficou em segundo plano. Tanto que o filme nem tem muitas cenas de lutas. Para se ter uma ideia, eu contei só duas cenas do tipo. E em uma dessas cenas, nem tinham samurais combatendo. O verdadeiro combate entre samurais ficou para o final, que terminou de forma melancólica. Se não tivesse essa hierarquia no Japão da época, talvez o destino de nossos personagens fosse diferente.
Mas nem tudo foi algodão-doce e guaraná. O Japão é um país em que o sistema hierárquico é forte até os dias de hoje. A posição de nobres, comerciantes, artistas, artesãos, religiosos, camponeses e os “etas” (considerados a “escória” dos japoneses da época) não se misturavam. Era muito raro que isso acontecesse, onde o ato consumado da mistura de classes era inaceitável. Mas Uchida usou toda a sensibilidade para mostrar que antes do sistema de classe existir, todos são humanos e que precisam de compreensão para se entender entre si.
Conclusão poética
Por isso, digo que “A Lança Ensanguentada”, apesar do título forte no Brasil, é um filme que trabalha a sensibilidade do espectador. Quem mergulha no universo proposto pelo diretor sai satisfeito. O resultado é um filme poético, com uma direção de arte majestosa que nos transporta para um Japão pouco conhecido, com efeitos especiais práticos e sem grande impacto, mas que convencem (como na cena das nuvens de chuvas se formando no Fuji-Yama).
O filme trabalha o belo. A beleza da vida é exaltada e o público fica com a pureza dos personagens apresentados. Mas se você for assistir ao filme procurando cenas de lutas elaboradas como em filmes contemporâneos da época, vai ficar desapontado. Não é um filme de combate, é um filme que mostra que a vida é de uma beleza ímpar e que vale a pena viver, ao contrário de Os Sete Samurais ou os 13 Assassinos.
Aliás, continue comigo e clique aqui para conferir a resenha que escrevi sobre os 13 Assassinos.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



