A Lâmina Diabólica

Samurai, flores e ambiguidade: análise de A Lâmina Diabólica

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A Lâmina Diabólica, obra do novelista Shibata Renzaburô, foi transformada em um filme bem peculiar com uma bela fotografia de Yamashita Reijuro e direção de arte impecável de Shimoishizaka Shigenori. E tudo isso graças ao excelente trabalho de Kenji Misumi, que se sentiu atraído pela trama do novelista em criar um samurai atípico com uma velocidade extraordinária e um forte senso de observação.

Eu diria que A Lâmina Diabólica é um conto com pegada meio de thriller. Já começa pelo início, que nos mostrou a suposta origem do nosso protagonista. Chamado de “filho de cão”, pois segundo a palavra da mãe dele, veio do cão de sua senhora, ele desenvolveu habilidades extraordinárias à medida que crescia. 

O protagonista Hanpei e sua construção no cinema jidaigeki

E o filme contou com a atuação impecável de Ichikawa Raizô, que deu vida ao nosso simplório Hanpei. O ator deu vida a um dos samurais mais trágicos da história do cinema japonês do estilo jidaigeiki. Com porte de galã, ele pôde dar vida a um samurai simplório que evoluiu na arte da espada. 

A ideia inicial é levar o lema de que “o que é simples é verdadeiro” a sério. A vida de Hanpei era ser um pacífico jardineiro. Mas a evolução do personagem é notória. E suas habilidades foram notadas por todos ao seu redor, tanto na parte como jardineiro exemplar como a de um exímio combatente. Ichikawa conseguia mudar com tanta naturalidade a expressão do olhar que era possível entender a dubiedade do personagem. 

A direção de Misumi e o olhar como recurso narrativo

Além do talento dele, foi muito bem dirigido por Misumi e criou movimentos oportunos com as espadas. Mas a maior particularidade de Ishikawa é dar vida aos movimentos de Hanpei só com o olhar. Aliás, esse mesmo olhar é explorado por Misumi durante toda a película. Em vários momentos, o diretor captou o olhar do nosso protagonista em jogos de câmeras que fizeram com que o telespectador ficasse encucado com os olhos de Ichikawa-san. 

E isso deixou o filme belo. Embora tivesse lutas, o foco aqui foi mostrar o quão bela é a vida e a percepção do olhar em momentos de dor. Sim! Nosso herói sofreu muito durante a vida e isso é explícito nas palavras de teu pai adotivo no leito de morte. Mesmo assim, nosso protagonista passou boa parte da vida cultivando o que é belo, como flores e paz. E no fim das contas, a vida dele é transformada à medida que ele abandona as flores e a paz. 

O toque sobrenatural e a fotografia exuberante de Yamashita

Misumi Kenji soube dar vida na tela a um personagem enigmático. O filme conta com um toque sobrenatural, como as habilidades de Hanpei e a atração dele pelas espadas num santuário xintoísta. Coube ao roteirista Hoshikawa Seiji adaptar uma história com pitadas de sobrenatural para que Kenji trabalhasse na direção. O roteirista soube levar a história para um patamar para que a condução de Misumi fosse notada. 

E uma coisa curiosa é que o diretor aproveitou a beleza das cores numa fotografia majestosa de Reijurô Yamashita para o filme, principalmente numa época em que predominavam os filmes em preto em branco. Misumi soube aproveitar o máximo das belas locações para o filme e Yamashita soube trabalhar de maneira sublime a sua fotografia, se tornando uma das fotografias mais belas do cinema jidaigeki da década de 1960. 

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Filosofia da espada e a estética do belo no jidaigeki

Em tempo, é notório que o que deixou o filme belo não foi só a fotografia de Yamashita, mas também a bela direção de arte de Shigenori Shimoishizaka. Os desenhos dos cenários feitos pelo artista aliada a fotografia de Yamashita fez questão de cumprir o objetivo do filme: exaltar o que é belo. Sempre vou bater nessa tecla, pois, geralmente, filmes jidaigeki possuem a característica de mostrar a violência crua, sem se importar com o belo. Mas não é o que vemos aqui. O filme possui embates de espadas. 

Aliás, tudo é direcionado para esses embates. Mas o que é mostrado não são só combates de espadas. Tem toda uma filosofia para desembainhar a espada em cena. Ela não é desembainhada de qualquer jeito e sem escrúpulos. Muito pelo contrário. Até mesmo o ato de desembainhar a espada num combate é expresso com certa beleza. Até nisso Misume soube captar a delicadeza dos personagens.

A Lâmina Diabólica
Capa do DVD de A Lâmina Diabólica

Ambiguidade moral de Hanpei e a presença feminina

O filme não tem antagonistas nominais. Às vezes Hanpei age como protagonista e também age como antagonista. E isso faz parte da construção do personagem, que teve sua personalidade mudada diversas vezes durante a película. Hanpei foi construído para ser assim. Ele, acostumado com o que é belo, de repente é obrigado a aceitar o “não-belo”. E ao ver o “não-belo” que fez com que nosso protagonista tivesse peculiaridades sobre sua personalidade. 

Ele não é uma pessoa ruim. Mas também não é uma pessoa boa. Ele transita entre o Bem e o Mal. Ele só melhora mesmo diante do belo. E o belo é apresentado na forma das flores do filme (maioria crisântemos) e na personagem Osaki (Sugata Michiko), único contato feminino do filme com grande relevância. Aliás, a ausência de personagens femininas é algo que pode incomodar algumas pessoas de mentalidade mais feminista, mas a presença de Michiko em cena foi aproveitada e deixou o filme mais rico do que já é. 

Efeitos especiais, trilha sonora e limitações do filme

Aqui também tivemos um trabalho com efeitos especiais simples, mas eficazes. Os efeitos especiais são mostrados nas cenas de combates e nas corridas de Hanpei, o que deu o tom sobrenatural e a aura de mistério que o personagem evoca durante as cenas. 

O único defeito propriamente dito do filme foi na parte sonora, tanto na trilha sonora como nos efeitos sonoros. A trilha sonora de Kaburagi Hajime podia ser algo mais tradicional, como vimos em filmes da época, como os contemporâneos Harakiri (1963). 

Neste caso, Kaburagi comete o mesmo erro que Sato Masaru (em Os Sete Rebeldes) ao criar uma trilha inspirada em bang-bangs. A música tradicional japonesa é rica e única. O teatro Kabuki é maravilhoso e possui belos temas em instrumentos tradicionais. Podia ter servido de inspiração para o filme. Mas não é o que vemos aqui. Infelizmente foi um pecado.

A beleza como essência de A Lâmina Diabólica

A Lâmina Diabólica, embora tenha um título razoavelmente macabro, é um filme que exalta o belo. E essa beleza foi explorada na fotografia e na direção de arte. O resultado pode ser conferido no belo trabalho de direção e de forma precisa de Misumi Kenji na tela. 

Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!

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