Entre samurais e estrangeiros: por que Xógum provoca debates?
Antes de o Japão feudal virar cenário recorrente de séries modernas, minisséries televisivas e produções que influenciaram até o visual e o tom de muitas narrativas do tokusatsu, Xógum (ou Shogun) já apresentava ao Ocidente um retrato denso, político e brutal da era dos samurais.
A obra conta a história de um inglês que se vê envolvido em conflitos civis japoneses no início do século XVII, em meio a disputas de poder, religião e comércio.
James Clavell e o maior trunfo de sua carreira
Shogun é um livro e tanto. James Clavell concebeu essa história do tempo dos samurais na época em que vivia no Oriente por questões militares. O autor é australiano, mas foi naturalizado britânico. Embora tenha muitos sucessos literários e cinematográficos, Shogun é o maior trunfo da carreira de Clavell. Mais do que o sucesso de Ao Mestre Com Carinho, no qual ele atuou como diretor e roteirista, aclamando a carreira de Sidney Poitier.
O Japão dos samurais visto pelos ocidentais
É inegável o conhecimento que Clavell teve em descrever o Japão dos Samurais. Quando a história de Shogun fora escrita, o conhecimento dos Ocidentais para a história do Japão se resumia aos parcos filmes de samurais (chambaras) que chegavam ao Ocidente.
O ápice mesmo foi com a chegada do consagrado Os Sete Samurais, 1954, de Akira Kurosawa, que fez com que o mundo fosse descobrindo a fama dos antigos, honrados e sanguinários guerreiros japoneses.
É muito provável que Clavell tenha tido como base esses chambaras que aportaram quando ele se mudou definitivamente para os EUA e escreveu esse tema. E é inegável também que Clavell se mostrou um exímio estudante da cultura e da história japonesa.
Política, comércio e choque cultural
A história de Shogun se baseia nos tratos comerciais de Tokugawa Ieyasu (representado aqui na figura de Toranaga) com os estrangeiros e a liberação do comércio dos japoneses pelos da cristandade nos anos 1600. O livro é uma história grandiosa. E os premiados foram os leitores. Também é notável a exultação de Clavell ao descrever a cultura japonesa e o desprezo pela cultura ocidental.
Como dito, Clavell passou boa parte da sua vida em territórios orientais, o que fez com que ele nutrisse certa afeição pelo Oriente e seu jeito de ser.
Blackthorne como porta-voz do autor
E o personagem Blackthorne (Anji-san) é a personificação de Clavell enquanto ele vivia no Oriente. Por exemplo, Blackthorne elogiava constantemente os hábitos de higiene do povo japonês e mostrava repugnância para os hábitos ocidentais.
Afinal, é de conhecimento mundial que os Japoneses são um dos povos mais limpos do mundo e os Europeus, em sua vasta maioria, não possuíam esse hábito de higiene desde os tempos remotos. Essas explanações, na verdade, era o modo de Clavell usar Blackthorne como porta-voz de seus pensamentos para desmerecer a conduta do povo europeu.
Religião, poder e ambiguidade moral
Aqui vimos também o desprezo de Blackthorne (o porta-voz de Clavell) do envolvimento católico com a política interna e externa da humanidade. Clavell usou Blackthorne para expressar repúdio com o que a Cristandade tem feito “em nome de Deus” desde tempos remotos. E é notória a periculosidade dos padres em envolvimentos que não lhes dizem direito.
Mas a remissão no final foi uma forma de “agradar” os mais conservadores pelo lado católico. Alvito é um personagem ambíguo. Tinha hora em que a gente ficava do lado dele e outra não. Mas ele representa toda a crítica de Clavell ao modo como a Igreja Católica matava “em nome de Deus e das Riquezas” (afinal, Alvito, no livro, era BEM ambicioso).
A força das personagens femininas
Uma coisa elogiável nessa narrativa foi o fato da presença feminina e mostrar a superioridade das mulheres acima dos homens. A importância do papel da mulher no livro foi algo agradável de ver, podendo ser palatável ao público feminista. As personagens femininas se mostraram mais sagazes e influentes na trama do que os masculinos.
Numa época em que o Japão menosprezava a mulher (onde acontece em alguns casos até os dias de hoje), ver como a figura da mulher como um ser além do objeto de luxúria pessoal dos homens, mas como pessoa sagaz mostra a submissão de Clavell ao feminino.
A exaltação dele ao feminino nas figuras de Mariko, Ochiba, Kiku, Midore, Yodoko, Gyoko e Fujiko mostra o respeito do autor pelas mulheres japonesas, tão desprezadas na época. Essa exaltação a inteligência superior da mulher pode agradar e muito leitoras que esperavam que as mulheres fossem só usadas para luxúria. O envolvimento político delas na trama mostra que elas são capazes de exercer grande influência no modo de vida do povo japonês.
Limitações, envelhecimento e críticas
Mas Shogun não está isento de críticas. Uma delas foi a longevidade da narrativa. Teve momentos em que a leitura se tornou maçante, mas recuperou o fôlego a partir do quarto tomo. Outra coisa que me incomodou foi a erotização de adolescentes (meninos e meninas) na história. Embora isso era comum no Japão da época, achava que podia ter nos poupado desses detalhes. Mas estamos falando de um livro escrito na década de 1970. Um livro de 50 anos atrás. Outra época e outra geração eram leitores ávidos dessas histórias.
Mas a história, mesmo para uma narrativa que se passava há 4 séculos atrás, envelheceu mal para a geração atual, que possui como base a série da Star+ de 2023/2024.
Uma leitura épica e exigente
Shogun é uma história grandiosa. A leitura tem que ser feita bem lenta para entender detalhes, pois a história é longa e pode cansar, sem falar que são MUITOS personagens (alguns se mostraram importantes no início, mas depois sumiram inexplicavelmente). Levei 5 meses para concluir a leitura. É uma narrativa épica que merece os louros da fama como tem colhido nas últimas décadas.
Vai ficar na memória afetiva da geração atual mais pela série do ano de 2024 do que pelo livro, visto que a série atual ajudou a movimentar o interesse pela obra grandiosa de James Clavell. Pode ser que alguns da geração atual se interessem pela leitura, o que a série de 2024 pode ajudar a despertar esse novo tipo de leitura.
Para saber mais sobre romances históricos ambientados no Japão feudal, samurais e narrativas que influenciaram a cultura pop japonesa, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



