Satsuma Gishiden

Satsuma Gishiden: o mangá histórico mais brutal sobre o Japão Feudal

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Quando assistimos a um tokusatsu ambientado no Japão Feudal ou vemos referências ao período Edo em séries modernas, muitas vezes não temos dimensão do peso histórico por trás dessas narrativas. Honra, lealdade, corrupção e sacrifício não são apenas elementos dramáticos: fazem parte de episódios reais e dolorosos da história japonesa. É nesse contexto que mergulho em uma obra como esta.

Satsuma Gishiden – Volume 01 (Hiroshi Hirata, 1971)

Hiroshi Hirata se lançou no mundo dos mangás aos 21 anos de forma tardia. O autor estava apto para ser bombeiro hidráulico até ser convencido por um amigo a entrar no mundo dos mangás, visto que esse amigo estava ganhando dinheiro com quadrinhos.

Aí, veio a Segunda Guerra, material escasso. Mas ele voltou com tudo na década de 1950. Mas foi em 1971 que sua aclamação como mangaká veio ao lançar um jidaigeki que o consagrou e que é esse que estou lendo: Satsuma Gishiden.

Ao contrário da obra posterior (a saga O Preço da Desonra) que não possui nem começo e nem fim, foram só histórias soltas onde nenhum capítulo se conecta, aqui nesse primeiro volume (aparentemente), os capítulos apresentam uma conexão correta e sincera.

De alguma forma, os capítulos são conectados por um determinado ponto da história. Por isso que Satsuma Gishiden tem apresentado uma boa premissa até aqui. Foi contada a origem de alguns personagens e o porquê de eles serem desse jeito.

E o autor caprichou na arte. Nesse primeiro volume, notei uma precisão anatômica e rara para um mangaká desse porte. O autor desenha muito bem e o traço realista deixou a história bem aproveitada.

O autor soube tirar leite de pedra no papel, principalmente na construção de cenários condizentes com a época em que a trama é passada (século XVIII). O leitor se sente imerso na trama e consegue até imaginar as cores. Ou seja, nesse volume, vemos um grande estilo de mudança. Não é um shounen. Mas um seinen para não botar defeito.

Drama, humor e violência

E sobre o mangá ser um seinen (histórias para o público acima dos 30 anos) de drama jidaigeki (histórias em filmes, livros, quadrinhos, animes e doramas que retratam o Japão Feudal), aqui fomos agraciados por uma mistura de sentimentos.

Vamos encontrar até mesmo cenas de humor e gagues visuais com algumas anotações humorísticas por parte de Hirata. Sim. Quem foi que disse que um mangá seinen não pode ter o humor a seu favor? Hirata provou que pode.

Um drama histórico precisa de humor. Mas o humor aparece, mas não com frequência. Aparece em momentos oportunos, principalmente por zombar do falo de um dos personagens (que em alguns quadrinhos é desenhado e em outros é censurado).

Muitas das piadas nesse primeiro volume são de cunho sexual. Mas nada que atrapalhe o andamento da história. Apesar do humor presente, o foco é o drama e o suspense, que faz a gente se perguntar o que houve e o que acontecerá.

A gente se simpatiza com alguns personagens logo de cara, principalmente pelos aparentes protagonistas. Mas acabamos absorvendo o drama e a dor deles em nossas vidas.

A violência retratada com ar de crueldade foi amenizada pelo humor. Vamos ver se o autor consegue administrar com êxito ainda mais a trama no volume 02 como ocorreu aqui.

Satsuma Gishiden – Volume 02 (Hiroshi Hirata, 1972)

Quando eu li esse segundo volume de Satsuma Gishiden, me deu a impressão de estar lendo Mad Maria (de Márcio de Souza). Por quê? Bem… a forma do roteiro é a mesma.

As dificuldades de um povo numa região inóspita castigada pela fúria da Natureza. A diferença está só nos cenários (um se passava na região de Gifu no Japão…. a outra na Amazônia brasileira).

Mas a proposta dos dois livros é a mesma: relatar as dificuldades da vida de um ser humano em condições insalubres para realizar uma obra do governo em locais inóspitos. O resultado é essa narrativa.

Mas do mesmo modo que Mad Maria, a história de Satsuma Gishiden foi baseada em fatos reais. A tal obra de contenção de enchentes em Gifu realmente aconteceu. Hirata usou um relato real para criar histórias fictícias interligadas entre si.

É possível criar uma trama fictícia baseada num relato real? Sim! Hirata mostrou que é capaz. Cabe ao leitor ler com bastante atenção e captar o que é real e imaginário. Afinal, muitos nomes na obra são fictícios. Mas temos as notas para nos ajudar a entender o que é real e imaginário.

Sofrimento e múltiplos protagonistas

Ao contrário do volume 01, nesse volume, o humor é quase nulo e escasso. São poucos os momentos em que o autor se aproveita de gagues visuais para amenizar o sofrimento causado pelos trabalhadores.

Aqui não temos um protagonista propriamente dito. Cada história possui um protagonista próprio, que é interligado com a obra da represagem. São poucos os personagens que transitam de história para história.

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Como disse no parágrafo anterior, o objetivo aqui é narrar o sofrimento causado pelo trabalho árduo em um local inóspito. O pouco do humor apresentado aqui é para amenizar essa situação.

A vida dos trabalhadores não foi fácil. Precisava de algo leve para deixar a leitura mais palatável. Mas o autor criar vários personagens com um tema em comum é algo que vale a pena elogiar.

A imaginação de Hirata para tirar personagens carismáticos numa história baseada em fatos reais é, deveras, interessante. O resultado vemos aqui, numa história que te prende e te cativa.

Satsuma Gishiden – Volume 03 (Hiroshi Hirata, 1971)

Enfim, concluí a saga dos leais guerreiros de Satsuma. A definição sobre a obra é a mesma que disse sobre o volume 02. Ler Satsuma Gishiden é como se eu estivesse lendo Mad Maria, de Mário Souza.

Por quê? Bem… em Mad Maria, trabalhadores de diversas partes do país são convocados para irem para a Amazônia para trabalharem numa estrada de ferro para facilitar o comércio da borracha, tendo que enfrentar condições desumanas e até mesmo corrupção entre os superiores.

Em Satsuma Gishiden acontece a mesma coisa. Trabalhadores de Satsuma são convocados a irem para a região de Gifu trabalharem no represamento de três rios em condições desumanas e até mesmo corrupção entre os superiores.

E, em ambos os casos, tiveram MUITAS brigas e mortes. E do mesmo modo que um quanto o outro, o passado e a vida desses trabalhadores passaram desapercebidos no decorrer da história de suas regiões. Nada de homenagens. Nada de lembranças.

Mas Hirata veio quebrar isso. No próprio volume ele fez questão de exaltar a importância da vida desses trabalhadores. Ele citou outros autores que criaram romances relacionados as obras de Gifu. E isso foi bacana.

Hirata realmente se importou em transformar a vida desses operários em homenagens póstumas depois de séculos. Afinal, graças aos esforços dos homens de Satsuma, o povo de Gifu teve paz diante da fúria da Natureza por séculos.

Conexões, crítica e personagem feminina

Hirata trabalhou em cada história de um jeito que tivesse uma conexão, mesmo apresentando protagonistas diferentes em cada história. Mas o que motivou a escrever e desenhar foi a obra de Gifu.

Ele mostrou várias facetas da obra segundo a visão de protagonistas e antagonistas diferentes. Vez ou outra, outro personagem de outro capítulo era citado. Mas o foco é apresentar para o leitor o andamento das obras por diversos ângulos.

A vida do trabalhador de Satsuma que foi para Gifu não foi fácil. Tiveram que ficar privados de lazer, diversão, descanso, famílias e amigos para satisfazer a soberba pessoal do governo de Tokugawa, que tentou com a obra, desmantelar o han de Satsuma.

Ao contrário dos outros dois volumes, o terceiro já apresentou uma figura feminina importante. Sim! Estamos falando de um seinen jidaigeki.

Mas aqui em Satsuma Gishiden, Hirata pôde cuidar para que a figura da mulher japonesa do período feudal fosse além da imagem de objetos para satisfazer a luxúria masculina.

A figura de Fusa mostrou que elas são fortes e poderosas. A fibra de Fusa no decorrer da história mostrou que ela é mais forte e abnegada do que os personagens masculinos da sua trama.

Considerações finais

Satsuma Gishiden termina assim. O começo coeso, meio sem conexões, mas muito bons e fim chocante. É uma história que o leitor sensível por situações desenhadas não poderá digerir com facilidade.

Mas, mesmo assim, é uma história que valoriza os esforços da vida de pessoas que resolveram abandonar a terra natal para trabalharem debaixo de diversas formas de opressão e corrupção do governo.

Sabemos que o Japão foi um país cruel no passado. Que histórias como essa refletem a importância de remissão o quanto antes. E mostrou que é um país que precisou sofrer para evoluir.

Pra que serve a honra e lealdade se não tivermos amor pelo próximo? É isso que Satsuma Gishiden trata. E o resultado é essa obra de forte teor crítico e poderoso.

Se você gosta de histórias que exploram o Japão Feudal além da fantasia e quer aprofundar seu olhar sobre as raízes históricas que também influenciam o universo do tokusatsu, eu te convido a conferir as demais resenhas que publico aqui no Toku Blog.

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