Um panorama direto sobre Samurais e Ninjas: mito, realidade e cultura pop
Samurais e ninjas sempre ocuparam um espaço central nas narrativas de tokusatsu, seja como inspiração direta para heróis, vilões ou arquétipos de honra, disciplina e astúcia. Mesmo quando não aparecem literalmente nas telas, esses guerreiros moldam o imaginário de séries e produções que revisitam o Japão feudal ou reinterpretam seus códigos de conduta em contextos modernos.
Essa herança cultural ajuda a explicar por que obras como Samurais e Ninjas se propõem a separar mito e realidade que dialogam tão bem com o universo do tokusatsu.
Proposta de Samurais e Ninjas
Com textos de Carolina Botelho, Danilo Corci e Ricardo Giassetti, essa brochura teve como propósito de apresentar o essencial sobre o passado e presente das duas principais “entidades” japonesas: os Samurais e os Ninjas (Shinobi). Essas duas “entidades” de vivência quase mitológica permeiam o imaginário nativo e o estrangeiro.
Somos apresentados a muitos produtos sobre Samurais e Ninjas. Muitas mídias e manifestações artísticas retratam esses exímios combatentes de uma forma romantizada. Mas, como era a realidade? Bem, esse foi o propósito dessa brochura. Expressar o máximo possível sobre o que é real e o que é mito sobre essas duas “entidades”.
A seção dedicada aos samurais
A brochura possui 98 páginas e foi dividida em 50% das páginas dedicadas aos samurais e 50% dedicadas aos ninjas. Foram divididas em duas partes, óbvio. A primeira metade foi dedicada aos samurais. Fomos apresentados logo nas primeiras páginas ao “samurai brasileiro” Jorge Nishikawa, sensei do Instituto Niten que ensina embates de espada e disciplina ao seus alunos no Brasil, tendo escolas em São Paulo e Paraná e ainda por cima (até o ano em que a brochura foi lançada) em outros países da América do Sul, como Argentina e Peru.
Numa entrevista conduzida de forma leve, ele nos mostrou como as pessoas devem ser disciplinadas para absorverem um pouco o código de conduta dos Samurais. Vimos depoimentos de seus alunos também de como essa etiqueta samurai influenciou o comportamento deles em situações extremas.
O segundo ato mostrou como foi a chegada dos Samurais através de Quadrinhos e Cinema ao Ocidente. Aqui exaltou a importância de Lobo Solitário para a popularização desses guerreiros por esses lados e de como o mangá inspirou grandes artistas a criarem personagens importantes para a cultura pop (como o Ronin de Frank Miller). A ideia de apresentar isso me soou mais abstrata, pois o texto fez questão de exaltar as parcas artes feitas no Ocidente com temática samurai do que explorar o rico universo do Cinema, Mangá e Animação Japonesa.
Sim… sabemos que existem muitos artistas ocidentais que se inspiraram nas histórias de samurais para comporem seus produtos. Mas do mesmo modo que fizeram uma seção dedicada as manifestações artísticas no Ocidente, devia ter dedicado as mesmas manifestações artísticas no país de origem, que é muito mais rico.
Depois somos apresentados a um belíssimo texto sobre o histórico de lutas nos tempos dos samurais. Fomos apresentados a guerreiros famosos e um pouco do estilo de vida deles. Também ficamos sabendo um pouco do sistema de castas presentes no Japão Feudal e que foi abolido na Restauração Meiji. Ficamos sabendo também da ascensão, glória e queda de Nobunaga, Tokugawa e Hideyoshi.
No mesmo texto fomos apresentados também ao histórico proposto pelo radical autor Yukio Mishima, que, é de conhecimento de todos, cometeu seppuku na TV após uma tentativa frustrada de render um general japonês radical. Ficamos sabendo também da sua homossexualidade e a crítica ao estilo de vida fascista vivido pelo escritor. E no tópico sobre Mishima, ficamos conhecendo um pouco de uma prática que não é muito mostrada nas artes japonesas sobre o estilo de vida dos Samurais.
Sim! Os guerreiros samurais eram retratados como guerreiros másculos e viris, mas vimos em algumas obras de Mishima e em alguns filmes (sendo o mais famoso o filme Gohatto, de Nagisa Oshima, 1999) que os samurais praticavam atos de homossexualidade e sexo casual com meninos menores de 14 anos. Coisa que é inaceitável para os padrões do mundo moderno, mas que era comum no Japão da época. Depois nos é apresentado um panorama das armas usadas pelos guerreiros.
Ainda sobre a seção dos Samurais, eu fiquei meio pasmo ao ver que a brochura fez uma simples citação ao samurai mais famoso (Miyamoto Musashi) e destacou mais artistas estadunidenses que absorveram um pouco da cultura samurai em seus trabalhos e estilo de vida. Eu acredito que, para o leitor sedento por querer conhecer mais sobre a história desses guerreiros e nomes famosos, era mais importante abranger sobre Musashi e sua obra do que Frank Miller e sua obra. Enfim…
A seção dedicada aos ninjas
Agora a seção dos Ninjas possui mesmas páginas que a dos samurais. Mas muito mais rica que a dos Samurais. Fomos apresentados ao estilo de vida dos ninjas do passado. Um pouco do passado dos clãs Iga e Koga e a influência deles nas guerras dos samurais no Período Kamakura e depois parte do Período Tokugawa. É importante citar nesse tomo a desmistificação do “guerreiro” ninja. Antes de serem combatentes, eles eram pessoas normais com capacidade além do normal para algumas missões. Reforçando, antes de serem combatentes, eles eram espiões e informantes.
Nesse ponto, a desmistificação foi ótima. Apesar dos ninjas de verdade usarem efeitos pirotécnicos e armas especiais, eles não são super-humanos. A função deles era mais de serem informantes. Existem poucos relatos sobre combates de ninjas. Principalmente porque, se um ninja se confrontasse com um samurai, não teria chances, sendo obrigado a usar meios furtivos e sorrateiros para vencerem um confronto.
Ainda fomos apresentados aos ninjas mais famosos do Japão. Alguns do tempo feudal e outro do tempo moderno. O primeiro foi Hattori Hanzo., figura emblemática do universo ninja. Foi nos mostrado que Hanzo era mais camponês que combatente. Ele ludibriou lorde Tokugawa em alguns momentos. Também ficamos conhecendo um pouco do passado do lendário lorde Yamato, considerado pelos japoneses como o primeiro ninja da história, influenciado pela filosofia confunciana de Sun Tzu no livro “A Arte da Guerra”.
Nos tempos modernos, o nome mais famoso que temos conhecimento é o de Masaki Hatsumi, que deu vida ao “velho” Tetsuzan Yamaji na série homônima Jiraiya, muito popular no Brasil. Em tempo, vale salientar o alívio em ver a série sendo citada no texto.
Depois passamos por um fundo histórico dos artefatos utilizados por essas entidades humanas. Depois passamos por algumas revisões históricas dos principais atos cometidos pelos ninjas em eventos do passado japonês, como a rebelião de Shimabara. É interessante ver o quão se torna atraente alguns relatos, como por exemplo, o fato de desmentirem que os clãs Iga e Koga eram rivais, sendo que teve momentos em que se ajudaram.
Pontos problemáticos e encerramento
O grande despautério da brochura está na parte dedicada a espionagem ocidental. Um grande equívoco que destoou da temática da brochura. Tá…. sabemos que os ninjas moldaram o sistema de espionagem ocidental. Embora tenha certo valor histórico na seção sobre espionagem, foi um equívoco dedicarem 6 páginas para a espionagem ocidental, Guerra Fria, Corrida Espacial e etc.
A brochura se encerra com dicas de animes, games, mangás, filmes, livros e quadrinhos sobre a temática. Ela também é rica em belas gravuras e fotos que complementam e embelezam as páginas e enriquecem os textos. Mas no geral, achei o que foi apresentado sobre o tema bem mediano. Podia ter enxugado algumas coisas e enriquecida outras coisas. Mas cabe ao leitor decidir se vai agradar ou não essa brochura.
Para saber mais sobre samurais, ninjas e representações históricas que dialogam com a cultura pop japonesa, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



