Ponte de Outono e a trajetória de Genji Okumichi através dos séculos
Assim como ocorre em muitas narrativas japonesas que atravessam épocas, reencarnações e ciclos históricos, algo comum também em séries e filmes de tokusatsu, Ponte de Outono amplia o universo apresentado em Bando de Pardais ao acompanhar Genji Okumichi ao longo dos séculos. A narrativa conta a história de Genji Okumichi no decorrer dos séculos.
Uma trama fragmentada no tempo e no espaço
Já morando nos EUA, Takashi nos apresentou essa trama intricada. Eu diria que Ponte de Outono é uma mistura de eventos que aconteceram antes e depois de Bando de Pardais, o romance de estreia do autor. Ou seja, um prequel e um epílogo para o Bando de Pardais. Ao contrário da trama anterior, Ponte de Outono peca pelo excesso de passagens de tempo o tempo todo. A ideia é boa, mas pode pegar o leitor desprevenido se ele não estiver atento.
Mesmo cada tópico tendo um subtítulo que apresenta o ano, local e época em que a passagem tenha sido relatada, esse emaranhado de época deixou a leitura confusa. Uma hora nós estamos no Japão, outro nos EUA, outro na Mongólia. Em uma hora nós estamos no século X, depois século XIII, depois século XIX e outra no século XX. Embora eu tenha lido rápido o livro, ficou um quê de “o que estou lendo?”. E essa confusão pode deixar o leitor perdido.
Méritos da obra e permanência temática
Mas tirando esse pormenor, o livro tem seus méritos. Novos personagens, a perda de outros, novas tramas. Mas sempre com o mesmo tipo de temática. Mesmo se passando por vários locais e épocas, o livro se prende mais no Japão do século XIX.
Sentimos falta de alguns momentos de tensão, que foi uma particularidade do primeiro título. Mas esse tem seus motivos para ser mais “ameno”. O “gore” é presente também. As vezes notamos relatos de crueldade na narrativa. Mas como o Japão da segunda metade do século XIX estava passando por uma reforma política sendo moldado pelo padrão ocidental, existem muitas obras que retratam a época que mostram o excesso de violência. E aqui não seria diferente.
Ocidentalização, bushido e ruptura de valores
O passado do Japão não é um poço de candura como muitos autores japoneses querem pregar em suas obras. O passado do Japão é algo cruel e sanguinário, manchado de sangue e terror. Claro que os mesmos autores tentam amenizar a situação, mas sabemos que não foi bem assim. Takashi Matsuoka quis mostrar isso. Ele não poupou esforços em dizer na narrativa que o Japão se tornou “civilizado” depois do processo de “ocidentalização”. Ou seja, por influências estrangeiras no país.
Vimos em Genji um típico senhor feudal que aceita a ideia de ocidentalizar o país para estreitar vínculos com o estrangeiro. A ideia de que o “samurai precisava viver para morrer pelo seu senhor” não era mais aceita pelo nosso protagonista. Aliás, Genji é o típico personagem que, depois de um passado cheio de mortes seguindo sua sombra, ele resolve “limpar” por abolir o “bushido” e a separação de castas do país. O próprio protagonista considera o “bushido” um atraso, para desespero dos seus asseclas. Até certo ponto, é uma ideia válida.
Sincretismo religioso e ecumenismo
Uma coisa que me chamou a atenção nesse livro foi o sincretismo religioso apresentado em diversas formas da fé do autor se expressar. Não fica implícito se o autor é cristão, ateu, shintoísta, budista ou espírita. Ele pega um pedacinho de cada um desses credos e o transforma em frases do livro para passar um ensinamento para o leitor.
Não sei qual foi o objetivo do autor para esse sincretismo, mas estou deduzindo que a ideia em dar essas facetas religiosas para cada um dos personagens é de fazer com que o leitor perceba que pode encontrar algo de bom aonde quer que ele vá. Não estou dizendo de Matsuoka-san está tentando “converter” o leitor, mas sim, apresentar ideias de onde o leitor pode se encontrar com o seu “eu” interior.
Ao fazer Genji como se fosse um ecumênico, o autor deu a entender que a pessoa não precisa ser necessariamente escravo de uma religião específica. Mas que é possível ter um credo e, mesmo assim, conseguir viver sem ser piegas e sem ser um teísta pedante ou um ateísta pedante.
Genji tem um pouco de cada um dos credos apresentados na trama (ateísmo, budismo, cristandade, espiritismo e shintoísmo). Aliás, a narrativa tem vários momentos em que o autor prega o ecumenismo como salvação interna. E isso, eu confesso que me incomodou um pouco.
Considerações finais sobre Ponte de Outono
Ponte de Outono não tem o charme de Bando de Pardais. Mas é uma narrativa que te prende. Para quem gosta de um pouco de horror oriental, talvez se sinta atraído pela trama. Tem momentos em que a narração flerta para os roteiros clichês de filmes de artes marciais oitentistas. Mas nada que suprima a trama principal envolvendo Genji, Emily e Shizuka.
A narrativa é confusa se o leitor for desatento, mas se tu fores um leitor bem atento, é capaz de gostar do que está sendo apresentado ali. As mudanças de épocas ocorrem bruscamente, quando tu estás imerso num pedaço da narrativa. Não chega a ser um livro ruim, mas a leitura é difícil. Valeu a pena para conhecer um pouco do Japão místico num contraste entre o antigo e o moderno.
Para conferir mais resenhas literárias sobre o Japão, cultura oriental e obras que dialogam com o imaginário da cultura pop japonesa, acesse outros textos meus publicados no Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



