Peregrinos do sol: a arte da espada samurai explicada por um mestre
Muito antes do público conhecer o manejo da espada japonesa por meio de filmes, animes ou séries tokusatsu exibidas na TV brasileira, a prática do Kendô já carregava séculos de tradição, disciplina e formação espiritual. Obras como “Peregrinos do Sol: a arte da espada samurai” ajudam a compreender como esse caminho marcial vai além da estética da cultura pop, revelando sua base histórica, filosófica e técnica.
Infância, tokusatsu e o fascínio pela espada
Ah…. a maravilha da arte da espada. Desde criança, eu e muito leitor dessa resenha que eu escrevi deve ter visto séries japonesas na emissora Rede Manchete com embates de espadas entre super-heróis e grandes vilões. Quando o episódio do dia terminava, muitos meninos (e por que não meninas também) tinham o hábito de pegar um graveto e imitar os golpes de espada de heróis em lutas consagradas, como as do Jaspion, Jiraya e Change Dragon.
Por causa de séries como essa que o grande público que consome cultura japonesa desde cedo se sente na necessidade de treinar movimentos do “Caminho da Espada” (Kendô), mais para replicar o que foi visto nessas produções do que todo o resto.
Estrutura e riqueza histórica da obra “Peregrinos do sol: a arte da espada samurai”
O livro de Luiz Kobayashi é bem didático. Ele abrange todo o período histórico do Japão e dos vários estilos de Kendô. O livro foi dividido em 6 partes respaldando cada um dos principais períodos históricos japoneses e comparando com o nascimento de diversos estilos e armas japonesas.
Além de trazer para as 347 páginas, nomes de espadachins famosos como desconhecidos de grande público. A riqueza de informação é grande. Muita pesquisa rendeu um dos melhores livros sobre a temática. E com datas precisas. Mostrou a importância no uso do manejo da espada nas escolas, nas campanhas militares, policiais, no cinema, na dança e em outros aspectos.
Um livro voltado aos praticantes
A intenção do autor é mais focalizar nos praticantes da arte. Tanto que o livro é recheado de termos técnicos que talvez só os praticantes veteranos de Kendô possam entender. Mas nada impede que simpatizantes da cultura japonesa e artes marciais (os leigos) possam dar uma lida e se interessar pela arte da espada.
É interessante notar que o livro deixa bem que claro o caráter religioso na formação das diversas formas do Kendô se expressar, sendo que, no pós-guerra, a simbologia religiosa é abolida e qualquer um com aptidão para o treinamento pode fazer a arte.
Desmistificando conceitos da cultura pop
O autor também decifrou algumas expressões comuns na cabeça do “otaku” médio. A mais marcante foi o significado da expressão “ki”, que em games, mangás e animes shonen padrões significa uma “manifestação de um poder espiritual visível”.
Mas na arte marcial, o “ki” quer dizer simplesmente “fôlego de vida” ou “energia dinâmica”, sem conotação sobrenatural, como é romantizado nas plataformas da cultura pop citadas. O tom aqui é mais sério. Tem momentos em que o autor usa de narração para contar uma história de um estilo de luta ou de uma arma branca. Esses contos deixaram o conteúdo mais dinâmico e interessante para se ler.
História, religião e contexto político
É digno de nota que o sensei Kobayashi quis mostrar que o Japão nunca foi um país santo e nem demônio. Tem um meio termo. Reconheceu todas as falhas do país nos mais de 2000 anos de existência da nação e também seus feitos heroicos.
As alianças políticas, as reformas da Era Meiji, a quase extinção do Kendô, o impacto da Segunda Guerra Mundial, a abdicação da divindade do Imperador e o uso desses fatos como base para o cinema jidageiki-chambara são apresentados com exatidão histórica. Saber, por exemplo, que o duelo entre Musashi e Kojiro ocorreu em 13 de abril de 1612 mostra o cuidado do autor com a precisão.
Espiritualidade e disciplina marcial
Muitos que se dizem “ateus” podem se incomodar com expressões budistas, xintoístas, católicas e confuncionistas citadas na obra. Mas isso é normal. Afinal, a prática do Kendô começou com ensinamentos fundamentalmente religiosos.
Ou seja, aquele que quer aprender desde o início sobre o Kendô terá que se despir do suposto ateísmo e compreender esse universo espiritual. O Kendô não serve apenas para ensinar o manejo da espada, mas para exercitar o encontro com o divino, independentemente do credo.
O Kendô no Brasil e a imigração japonesa
A cereja do bolo foi a seção 6, dedicada à imigração japonesa e ao desenvolvimento do Kendô no Brasil. A presença de dojôs em São Paulo, Paraná e Amazonas, aprovados por instituições japonesas, enriquece a narrativa. A obra aborda também a repressão sofrida pelos japoneses durante o Governo Vargas, a chegada não oficial de japoneses ao Brasil e a data oficial da imigração em 13 de junho de 1908. Um recorte histórico comovente e pouco explorado em outras obras.
Considerações finais
“Peregrinos do sol: a arte da espada samurai é um livro para quem deseja conhecer profundamente os estilos e escolas da arte marcial japonesa. É uma leitura obrigatória, que estimula disciplina e respeito. Não deve ser lido com motivações erradas. O Kendô não é para qualquer um.
Para saber mais sobre espadas japonesas, Kendô, cultura samurai e outras análises ligadas ao tokusatsu e à tradição japonesa, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



