Os Japoneses: uma análise antropológica do Japão moderno
Séries de tokusatsu sempre refletiram muito mais do que monstros e heróis fantasiados. Elas carregam valores, traumas históricos, disciplina social e formas de ver o mundo que nasceram muito antes da TV. Para entender por que o Japão se expressa dessa maneira em sua cultura pop, é preciso olhar para sua formação como civilização. Os Japoneses, de Célia Sakurai, ajuda justamente a compreender esse pano de fundo histórico, social e antropológico que sustenta tudo, inclusive o tokusatsu.
Os Japoneses: análise antropológica da civilização japonesa desde o período Jomon até o século XXI
A Antropologia é o ramo da Geografia que visa estudar e analisar o comportamento humano no decorrer da História e compará-los entre si. Célia Sakurai é uma antropóloga especializada em assuntos da Imigração Japonesa no Brasil e escreveu esse livro com o propósito de ajudar o leitor brasileiro a conhecer um pouco dos japoneses e aos descendentes a se espelharem nos antepassados.
Geografia, natureza e formação do arquipélago
O livro é obrigatório para quem quer ser aprofundar ainda mais no universo de uma das civilizações mais antigas e imponentes do mundo. O livro abriu com um capítulo dedicado a Geografia do país e como o arquipélago se formou, tanto na origem mitológica como na área geológica. O Japão é um país insular que fica na borda da placa tectônica do Pacífico conhecida como “Círculo de Fogo” ou, dependendo da região do mundo em que se encontra, essa placa é chamada de “Anel do Diabo”.
Por causa disso, o país é sujeito a sentir a fúria dos 4 elementos primários da Natureza: Tufões (Vento), Tsunamis (Água), Terremotos (Terra) e Erupções Vulcânicas (Fogo). E o livro não escondeu que o país é bastante castigado pela Natureza e isso fez com que a sociedade japonesa trabalhasse com a Natureza a seu favor desde tempos remotos. Devido ao desconhecimento de Geologia em épocas passadas, os Japoneses antigos atribuíam a fúria da Natureza aos deuses descontentes com eles.
O primeiro capítulo fez um resumo do que encontramos nas cinco partes principais do Japão (Hokkaido, Honshu, Shikoku, Kyushu e Okinawa) com sua fauna, flora e estrutura humana. Ou seja, para os amantes de Geografia, foi um bom início.
Neutralidade histórica e formação do caráter japonês
O que eu gostei da escrita da Célia é que ela se mostrou neutra com relação ao Japão. Todo mundo sabe que a história do Japão é cercada por ferocidade, xenofobia e machismo. E a autora não escondeu isso. Afinal, os Japoneses do passado não foram santos. Mas também não foram demônios. Ela fez questão de exaltar qualidades e criticar defeitos da sociedade japonesa.
Tudo começou com os Ainus e de como eles foram expulsos para as terras do Norte de Honshu até Hokkaido pelos povos que vieram do continente. Acostumados com uma vida pacífica, os Ainus não tiveram chances contra esse povo e abriu precedentes para uma nação feroz e cruel. As primeiras partes da história do Japão são cercadas por guerras sangrentas.
Nacionalismo, guerras e ruptura do mito imperial
A autora não escondeu que os japoneses da primeira metade do século XX pra baixo era um povo com nacionalismo exacerbado e que beirava ao fanatismo. E isso resultou em embates ferozes como as invasões à China, Coréia, Manchúria, Sião e Vietnã. E os japoneses se sentiram beneficiados com a suposta “ajuda divina” causada por tufões nas invasões ao arquipélago.
Depois a autora fez um panorama dos japoneses da Era Meiji até a primeira metade da era Showa. Isso inclui a vilania na Segunda Guerra, onde a autora não escondeu os atos bárbaros cometidos por soldados em países invadidos. A crença na divindade do imperador, descendente direto da deusa Amaterasu, também é tratada de forma direta, assim como a renúncia dessa divindade após a derrota na guerra.
Reconstrução, milagre econômico e imagem internacional
Mas a autora não foi só crítica com o país de seus antepassados. Ela teceu muitos elogios à estrutura e vontade dos japoneses no pós-guerra. O crescimento econômico, a valorização da educação, da cultura e da força de trabalho são destacados como pilares do chamado “milagre japonês”.
O Japão se tornou uma potência econômica e passou a ser visto como um país pacífico, disciplinado e organizado, refletindo uma nova imagem internacional que perdura até hoje.
Imigração japonesa e o Brasil
Uma das melhores sessões do livro pra mim foi quando a autora dedicou uma homenagem aos imigrantes em três países: EUA, Peru e, principalmente, Brasil. A exaltação às colônias japonesas em São Paulo e no Paraná é emocionante, assim como os relatos sobre os Nisei, que mantiveram tradições mesmo em períodos de perseguição política.
A importância das associações japonesas nas colônias brasileiras também é ressaltada como elemento fundamental para a preservação cultural.
Cultura pop japonesa e ressalvas finais
O livro termina com a imponência da cultura pop japonesa no país e no mundo, citando brinquedos, personagens e marcas que atravessaram gerações. A autora demonstra carinho especial por produtos como Hello Kitty, Sailor Moon e Pokémon.
Minha única ressalva foi tratar as produções tokusatsu como “Power Rangers”, mesmo citando corretamente séries como Changeman, Ultraman e Jaspion, sem usar o termo japonês original. Ainda assim, isso não compromete o valor da obra.
Para quem quiser ter uma boa aula de antropologia, esse livro é muito recomendado. Ele mostra o Japão como ele é: moderno e tradicional, belo e contraditório, feito de pétalas de cerejeira misturadas ao concreto das grandes cidades.
Se você quiser continuar explorando livros que ajudam a entender o Japão para além da cultura pop e compreender melhor as raízes que influenciam o tokusatsu, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



