Kwaidan

O livro Kwaidan é assustador? Entenda o impacto das histórias

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Quem cresceu assistindo tokusatsu com monstros espirituais, yokai e figuras fantasmagóricas talvez não imagine o quanto essas criaturas têm raízes profundas no folclore tradicional japonês. Kwaidan, de Lafcadio Hearn, é um dos registros mais inquietantes dessas histórias ancestrais, reunindo contos que misturam budismo, xintoísmo e medo em estado puro.

Lafcadio Hearn e sua imersão no Japão

Que livro, meu povo. Que livro.

Eu tenho vários livros de folclore e lendas japonesas. Mas muitos mesmo. E já li a maioria. Mas esse me deixou razoavelmente perturbado.

Lafcadio Hearn foi um escritor grego criado nos EUA que depois foi para o Japão trabalhar como professor universitário do Mikado. Casou com uma japonesa, teve filhos e abraçou a cultura japonesa. Abandonou o catolicismo e passou a viver segundo o budismo.

Por causa dessa imersão, conseguiu compilar diversos relatos do folclore japonês para o público ocidental. A maioria dos relatos possuem pensamentos do budismo Zen. Claro que também encontramos histórias baseadas no xintoísmo, principalmente na segunda parte. Mas o essencial são narrativas de origem budista, algumas inclusive vindas da China e adaptadas ao Japão.

Primeira parte: contos assombrados

Kwaidan é um livro curto dividido em duas partes.

A primeira parte reúne contos do folclore japonês, a maioria com um lado assombrado. Há inclusive um conto de origem celta, reflexo da infância do autor na Inglaterra. Mas praticamente todos os relatos carregam algo macabro, contado de forma aberta e perturbadora.

Muitos contos apresentam assombrações femininas manifestando vingança ou insatisfação contra homens. As vítimas geralmente são homens enganados por seus próprios desejos. Existe uma leitura possível sobre fragilidade moral e ilusões humanas.

Lafcadio demonstrou intimidade com as narrativas e não suavizou o impacto das histórias. Quatro contos me deixaram particularmente perturbado. O folclore japonês mexe com o psicológico do leitor. Cabe a cada um decidir até onde quer ir nessa experiência.

Segunda parte: o estudo dos insetos

A segunda parte do livro apresenta uma associação budista com três espécies de insetos: Borboleta, Mosquito e Formiga.

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Aqui, a filosofia Zen aparece de maneira mais direta. O texto propõe reflexões sobre respeito à vida e ciclos naturais. Em uma das seções, surgem haikais que dialogam com a espiritualidade budista.

A transição entre os contos sobrenaturais e essa abordagem mais filosófica é abrupta. O livro começa sombrio e termina contemplativo. Em alguns momentos, parece haver um esforço maior de transmitir ensinamentos budistas ao leitor ocidental.

Para quem busca apenas folclore fantástico, essa parte pode soar enfadonha. Para quem se interessa por espiritualidade e filosofia oriental, pode agregar.

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A adaptação cinematográfica

Uma curiosidade interessante: nos anos 60, o diretor Masaki Kobayashi transformou quatro contos do livro em um único filme.

O longa é visualmente marcante e se tornou uma das adaptações mais conhecidas do folclore japonês no cinema. Existem edições em DVD e Blu-ray, inclusive versões mais completas lançadas no Brasil.

Considerações finais

Kwaidan é curto. Cerca de 157 páginas. Poucas páginas, mas com histórias densas.

Confesso que fiquei incomodado com algumas narrativas a ponto de ter pesadelos. Mas isso faz parte da experiência quando se lida com folclore tradicional.

Gostei bastante da parte dos contos, onde pude aprofundar meu contato com mitos japoneses. Já o Estudo dos Insetos não me envolveu tanto. Mas pode funcionar melhor para outros leitores.

É uma leitura que exige preparo emocional. Para quem gosta de histórias mais pesadas e sobrenaturais, pode ser ainda mais impactante.

Se você gosta de mergulhar no lado mais sombrio da cultura japonesa tradicional, confira outras resenhas que publiquei no Toku Blog.

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