Vale a pena ler o Kojiki, o livro sagrado que inspirou os animes e tokusatsus?
Se você é apaixonado pelas produções vindas da Terra do Sol Nascente, sabe que grande parte dos heróis, monstros e tramas fantásticas do tokusatsu não surgiram do nada. Existe toda uma mitologia ancestral que moldou os arquétipos, lendas e combates que tanto amamos ver nas telas e nas páginas. Para entender a verdadeira raiz dessas histórias que fascinam gerações de fãs, é preciso voltar aos primeiros registros do Japão antigo. É aí que entra o Kojiki, a obra fundamental que serviu como gênesis para praticamente todo o universo da cultura pop japonesa.
Registro das Histórias Antigas (Kojiki, Ô no Yasumaro, 771)
Uma análise da obra que revelou a mitologia do Japão e serviu de base para a cultura pop moderna.

Contexto de Kojiki
Você se considera fã de tokusatsu? Você se considera fã de animes? Você se considera fã de games? E de mangás? Se a resposta for “SIM” para todas as perguntas, vocês precisam conhecer essa obra que é a gênesis do universo fantasioso que serviu como base para a produção de muitas obras da cultura pop tão comuns hoje em dia.
O Kojiki foi o primeiro registro por escrito da mitologia japonesa, ainda no século VIII. Numa época em que o Japão estava absorvendo um pouco do continente em sua formação (“continente” é para ser lido como China e Coréia), aproveitaram esse momento para assentar por escrito, registros que, antes eram passados de forma oral. Já tivemos muitas adaptações das passagens do Kojiki em diversas plataformas. Inclusive, na literatura. Muitas passagens do Kojiki podemos encontrar em filmes, tokusatsu, animes e mangás. Mas de onde surgiram essas histórias é que torna o Kojiki interessante.
O livro foi lançado no Brasil em 2024 com tradução de Jovanca Kamizi Ichikawa. A tradutora teve um trabalho e tanto para trazer para o século XXI, um texto do século VIII, visto que o padrão da língua japonesa mudou no decorrer dos séculos. E sem falar que não teve espaço para o coloquial, visto que o Kojiki foi escrito por uma nobre da corte japonesa, cuja linguagem era diferente da população comum.
No Japão do século VIII, o povo comum não tinha acesso a arte da escrita e da leitura. Isso era exclusivo somente para a família imperial e aos nobres. E foi nesse cenário que o Kojiki surgiu. Nos primeiros séculos, ele era restrito somente aos nobres. Foi na Era Meiji, quando o Imperador decretou que a população do país deveria ser alfabetizada que o povo comum começou a ter acesso a literatura. E foi nessa época aproximada que os japoneses tiveram acesso ao Kojiki. O resultado é que a obra sobreviveu até os dias de hoje.
Narrativa e ritmo de leitura
A leitura foi fácil. Talvez leitores sedentos por grandes eventos narrados ali não gostem do que foi apresentado. Tem momentos em que a ação predomina (como na narrativa envolvendo o “kami” Susanoo e o dragão de 8 cabeças Orochi). Mas os eventos de ação são curtos.
À medida que eu lia o Kojiki, procurei focar no objetivo dele, não nas ações dos personagens. O livro, embora narrasse alguns eventos importantes de ação, tem como objetivo, mostrar a linhagem imperial desde a sua origem mitológica até a parte carnal. O livro pode se tornar cansativo para quem espera só por eventos marcantes. Mas não é assim. Muitas passagens do livro revelam a árvore genealógica da família imperial.
A sensação que tive ao ler esse livro foi a mesma que tive quando li 1 Crônicas. Para quem não conhece esse livro bíblico, os 11 primeiros capítulos assentaram por escrito o nome das famílias e funcionários dos israelitas. As ações começam a acontecer a partir do capítulo 12.
Já no Kojiki, vimos a mesma coisa. O livro é dividido em três partes e, metade de cada parte é dedicado a um evento narrativo e a outra é para dedicar a linhagem imperial. E a maioria se dedica ao censo e registro por escrito da linhagem imperial. Por isso, não estranhem o excesso de passagens do tipo “fulano que se casou com cicrano que tiveram 5 filhos de nomes tal”. Isso pode deixar a leitura enfadonha em alguns momentos.
Pontos positivos e a riqueza do folclore
Mas as partes que indicam ação compensam esses registros históricos. Ao contrário de muitas produções que usam os eventos do Kojiki no seu miolo de forma expansiva, as ações no Kojiki são resumidas. Por exemplo, no combate entre Susanoo e Orochi em outras publicações (como no livro As Melhores Histórias da Mitologia Japonesa, de Carmen Seganfredo), usaram 5 ou 6 páginas para narrarem. Já no Kojiki, esse evento importante foi narrado em apenas uma página e meia. Ou seja, as outras publicações que pegaram o Kojiki como base tiveram uma liberdade de adaptação maior para deixar o texto mais rico. Mas isso não deve ser colocado em xeque. O Kojiki em si foi o primeiro livro escrito no Japão.
Ao contrário de produções ocidentais, a Côrte japonesa ainda não estava acostumada com esse tipo de literatura. Lembrando que boa parte do que o Japão absorveu de sua cultura veio da Coreia e, principalmente, da China. A cultura japonesa se permitiu se moldar de forma natural, se tornando única. Claro que, à medida que os séculos no Japão foram avançando, a arte da escrita foi se moldando, tornando a literatura japonesa agradável para quem gosta.
Críticas à edição e à tradução
Uma coisa que também pode irritar o leitor mais atento (e que me irritou em alguns momentos) foi o modo de como a tradutora transcreveu os nomes próprios de alguns “kamis” e membros da Côrte. Ao invés de fazer o uso de separação silábica correta para facilitar a leitura, a maioria dos nomes eram mostrados tudo junto. Alguns nomes tiveram sua leitura prejudicada por causa disso. Para quem não estiver familiarizado com as normas da escrita e fonema japonesas pode estranhar. E os nomes eram compridos, as vezes ocupando uma linha inteira!
Poderia ter usado as normas corretas da separação silábica adotada na nossa ortografia para facilitar o nome dos personagens citados. Afinal, estamos falando de uma adaptação para o nosso idioma. Não precisava seguir tão a risca o original japonês.
Conclusão
Tirando esses prós e contras, vimos que o Japão tem um passado rico. A cultura japonesa permeia o imaginário brasileiro tem muitos anos, desde a época em que o Japão enviou a primeira leva de imigrantes no ano de 1908. Na primeira parte do século XX, os japoneses e descendentes eram marginalizados e hostilizados no Brasil devido a sua posição na Segunda Guerra.
Mas conhecer um pouco do passado de um povo que fez história em nosso país é importante para quem gosta da cultura. A história do Japão é rica e seu folclore é bastante explorado na cultura pop. Conhecer um pouco de onde veio esses detalhes pode ser enriquecedor.
Gostou de conhecer mais sobre as origens mitológicas do Japão? Se você curte análises sinceras como essa, não deixe de conferir outras resenhas minhas aqui no Toku Blog para descobrir novas obras, curiosidades e reflexões sobre a cultura pop japonesa!
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.
