Guia dos Samurais e o retrato cru da classe guerreira japonesa
Antes dos samurais se tornarem figuras estilizadas em filmes, animes e até séries tokusatsu, sua existência esteve profundamente ligada a disciplina, treinamento e códigos de conduta rigorosos. Muitas dessas características aparecem diluídas na cultura pop, mas ganham contornos mais próximos da realidade em obras de caráter histórico e didático. Guia dos Samurais se propõe justamente a olhar para esse passado de forma menos romantizada, priorizando o modo de vida e a formação desses guerreiros.
Uma abordagem mais direta e tradicional
Ao contrário da brochura anterior da mesma editora que li, que abordava o universo dos samurais e ninjas, essa brochura é mais sucinta e mais completa, com o foco realmente na tradição de como ela era, não no que se tornou.
Eu confesso que gostei mais da leitura dessa brochura do que da anterior. Foram lidas 97 páginas num espaço de 6 horas e aprendi uma porção de coisas e nomes novos. Muitas das curiosidades eu já sabia de antemão, por causa de leituras anteriores. Mas saber de coisas novas é bom. E isso a brochura soube cativar o leitor.
O jeito de ser do samurai
Embora citasse fatos históricos, a ideia aqui era apresentar o jeito de ser dos samurais. O estilo de vida, a formação, o treinamento físico, mental, emocional, material e espiritual. Durante a leitura escrita de maneira persuasiva, nós vamos nos perguntando de serviríamos para ser um guerreiro samurai ou ninja. Vez outra me pegava fazendo essa pergunta enquanto lia as matérias propostas. Foram interessantes os fatos apresentados de um jeito que o leitor ficasse envolto nos relatos.
O espaço dado para a contemporaneidade é praticamente escasso, focando mais no tradicional. Embora a dissertação apresentasse citações modernas (como Primeira e Segunda Guerra), o foco sempre foi o que é antigo.
Linha do tempo, problemas gráficos e revisão
A brochura começa fazendo um panorama histórico de como surgiu a classe guerreira no Japão Feudal. Sempre que se relatava algo especulativo, essa informação era citada. No rodapé tem uma linha de tempo que avançava pelas páginas até a mudança de capítulo.
O que estragou e MUITO o prazer da leitura dessa linha de tempo é que usaram cores cor de carne numa fonte de letras de cor branca MUITO fina. Tem que ter uma visão de lince para enxergar os anos mostrados nessa linha de tempo. E esse problema das fontes usadas perdura em muitas páginas, dificultando a leitura de quem tem problema de visão (como eu). Mas se você tiver uma visão de lince, pode ser que aprecie e muito o que é mostrado com mais ardor nas páginas.
Outro defeito que me incomodou foi uma ausência de revisão. As dissertações estavam cheios de erros de digitação e concordância. As vezes se lia um “mais” no lugar do “mas” e alguns nomes trocados (foi difícil engolir, por exemplo, Tocogawa ao invés de “Tokugawa”).
Ilustrações, escolhas visuais e símbolos
A editora não teve medo de usar muitas ilustrações. Algumas ilustrações foram feitas pelo que parece ser com o “paint” e aprimoradas com o photoshop. Outras usaram ilustrações antigas expostas em museus internacionais. Outras são fotos reais (inclusive uma rara foto japonesa da Edo da década de 1880 que me impressionou). Ouso dizer que houve gravuras que foram feitas por Inteligência Artificial numa época em que essa tática estava nascendo. Mas no caso da IA, é BEM escasso, mas existente.
Também me chamou a atenção o fato de usarem uma bandeira imperial em uma das gravuras. Por quê? Bem… A bandeira imperial antiga (fundo branco com um círculo quase central e com 16 raios vermelhos saindo do que seria a representação do sol expandindo os territórios) é proibida a exibição em algumas culturas (inclusive, em alguns lugares do próprio Japão). Outra coisa que me chamou a atenção: a capa. Uma bela gravura com efeitos 3D deixou a brochura mais rica do que já é.
Temas sensíveis e recortes culturais
Houve também em alguns capítulos uma tentativa bem sutil de levantar bandeiras (principalmente por chamar o príncipe Yamato de “travesti” descaradamente). Mas isso não tira o mérito da qualidade do texto. Muito pelo contrário. Só exalta o mesmo para o leitor.
Acredito que a autora poderia “levantar bandeira” de uma maneira mais discreta, visto que a maioria do tipo de leitor de uma brochura dessa é ultra-conservador e preconceituoso. A própria redatora expressou em um dos textos que a cultura japonesa rechaçou a informação proposta pelo grupo LGBT japonês que Yamato era “gay”, pois existiam documentos que comprovam que Yamato era andrógino, mas teve uma esposa, que ela se matou e ele praticamente se entregou a depressão após a morte dela.
Vale lembrar que, embora a prática homossexual era comum entre os samurais e até mesmo incentivada (onde não vemos nada de anormal nisso), o Japão moderno é machista, homofóbico e conservador na maioria dos seus habitantes. Embora a autora citasse exemplos de duas mulheres guerreiras, o foco foram as bravuras indômitas dos homens, não dando muito espaço para os feitios femininos.
Embora tenha existido mulheres “samurais”, é inegável que as atividades e os feitos delas eram escassos, comparados aos de grandes nomes masculinos, como Toytomi, Ieyasu e Nobunaga. Afinal, o Japão da época era machista e essa característica do país perdura até os dias de hoje.
Armas, técnicas e legado
Dois tópicos que me chamaram a atenção: o armamento dos guerreiros samurais e ninjas e as técnicas de lutas. Com descrições precisas do que cada arma e arte marcial significam, ficamos sabendo como isso influenciou o jeito de ser do guerreiro japonês da época. Vimos também como essas artes chegaram a contemporaneidade.
Outro tomo que me chamou a atenção foi o que ensina a forjar a própria espada. Embora é melhor deixar que algum especialista faça essa espada pra gente, o texto deu informações precisas (mesmo com alguns erros de digitação que podem confundir o leitor) de como ela é fabricada e chega no seu estágio final.
Clique aqui para comprar o Guia dos Samurais.
Considerações finais
Guia dos Samurais é uma brochura precisa e melhor apresentada do que a primeira que li. Embora o foco sejam os samurais, tem algumas páginas dedicadas aos ninjas. Não temos bibliografias, mas nada que encontremos essas informações em outras publicações do tipo para quem gosta do tema.
Se o leitor não se importar com erros de digitação, pode se impressionar com o que é apresentado. E a brochura, com 97 páginas, foi barata. Eu paguei 100 reais por 12 exemplares num sebo em Londrina (8,35 cada uma) para presentear alguns amigos. E valeu a pena tê-la no meu acervo.
Para conferir outras resenhas sobre samurais, ninjas, cultura japonesa e as bases históricas que influenciam o tokusatsu, acesse os meus textos publicados no Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



