Filme de Memórias de uma Gueixa: vale a pena assistir?
Antes de existir tokusatsu, antes de heróis com armaduras metálicas e vilões explosivos tomarem conta da TV brasileira, existia um Japão retratado pela tradição, pelo silêncio e pela disciplina estética. Muito do que vemos em séries como Jaspion, Changeman ou mesmo em produções mais recentes carrega essa herança visual e cultural. E é exatamente nesse Japão anterior à cultura pop que Memórias de uma Gueixa mergulha, mostrando um mundo onde o espetáculo não vinha de explosões, mas de olhares, gestos e quimonos impecáveis.
História do filme de Memórias de uma Gueixa
Uma menina é vendida para uma casa de gueixas e se torna a maior de sua época.
Adaptação primorosa do romance de Arthur Golden. O resultado foi de encher os olhos. Eu já tinha visto o filme em 2008, mas não lembrava de quase nada. O livro que terminei recentemente só me reavivou a memória e me fez ficar cativo novamente.
Não sei dizer qual é a melhor parte do filme. Tudo foi trabalhado com extremo capricho. É difícil escolher um elemento para elogiar primeiro.
Livro e filme: comparações inevitáveis
Quando lemos o livro e assistimos ao filme, as comparações são inevitáveis. Aqui não foi diferente. O filme é uma versão resumida da obra literária e é praticamente fiel ao material original.
As mudanças são poucas e sutis. Algumas, inclusive, me agradaram bastante. Uma delas foi a retirada da sugestão de toque sexual envolvendo meninas menores, algo descrito de forma mais explícita no livro.
O romance escancara uma época diferente, onde esse tipo de prática era comum. Mas para o cinema, especialmente em uma produção hollywoodiana, essa abordagem não era necessária. A decisão tornou o filme mais equilibrado.
Direção de arte e reconstrução histórica
O ponto mais forte do filme é, sem dúvida, a direção de arte premiada.
A reconstrução da Kyoto dos anos 1930 é simplesmente primorosa. O cuidado visual é impressionante. A fotografia glamourosa transforma cada cena em um deleite estético.
O Japão retratado ali é ao mesmo tempo caótico e majestoso. A produção exigiu estudo minucioso do período pré e pós-Segunda Guerra. O resultado é uma ambientação convincente, rica e detalhada.
Para quem aprecia paisagens japonesas, o filme é um espetáculo visual. A reconstrução de época transforma Memórias de uma Gueixa em uma verdadeira obra-prima estética.
Figurino: luxo como linguagem narrativa
Outro destaque é o figurino exuberante.
O mundo das gueixas exige pompa. Os quimonos são parte essencial da identidade dessas mulheres. Quanto mais elaborados, mais impactantes.
A produção não economizou. Mesmo as figurantes vestem trajes luxuosos. O cuidado com tecidos, cores e camadas reforça o glamour e a imponência desse universo.
O reconhecimento nas premiações foi mais do que merecido.
Produção e trilha sonora
Steven Spielberg esteve entre os produtores do filme. E, como já era esperado, houve mais uma parceria com John Williams.
A trilha sonora flerta entre o erudito ocidental e o tradicional japonês. Embora haja arranjos ocidentais, a predominância é da sonoridade japonesa.
O resultado é uma trilha grandiosa, sensível e envolvente. A música amplia a imersão e fortalece o impacto emocional das cenas.
Elenco e controvérsias
O elenco reuniu nomes fortes. Parte do público japonês não aprovou a escolha de atrizes chinesas para os papéis principais, como Sayuri, Mameha e Hatsumomo.
Eu, particularmente, não vi isso como desfeita. Zhang Ziyi, Gong Li e Michelle Yeoh entregaram atuações sólidas. Cada gesto e olhar transmitiam disciplina e tradição.
Zhang Ziyi foi indicada ao Oscar por sua atuação. Não levou a estatueta, mas demonstrou a força crescente de artistas asiáticos no cinema ocidental.
O elenco masculino foi majoritariamente japonês. Destaque para Ken Watanabe como o Presidente e Koji Yakusho como Nobu. Cary-Hiroyuki Tagawa também marcou presença em uma participação intensa como o Barão.
O impacto visual e emocional
Memórias de uma Gueixa trabalha a grandiosidade visual em diversos momentos.
A cena da apresentação de Sayuri sob a neve artificial se tornou um marco do cinema nos anos 2000. Zhang Ziyi entregou profundidade e emoção na medida certa.
O filme é um espetáculo visual cuidadosamente construído. Lamento que não tenha vencido prêmio por roteiro adaptado, pois a narrativa prende e envolve.
A história nos mergulha em um mundo onde o glamour externo esconde dores internas profundas.
Se você gosta de entender as raízes culturais que influenciam o Japão que vemos no tokusatsu, no cinema e na TV, essa obra é um complemento interessante.
E eu convido você a conferir também as outras resenhas aqui no Toku Blog, onde sigo explorando o Japão além das armaduras, dos monstros e das explosões.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



