Por que o cinema samurai moldou gerações dentro e fora do Japão?
Muito antes de monstros gigantes, equipes coloridas ou heróis que gritam “Henshin” dominarem a televisão japonesa, o imaginário do tokusatsu já bebia diretamente da fonte do cinema samurai. Códigos de honra, confrontos ritualísticos, tragédias humanas e a estética do combate moldaram não apenas os chambaras, mas também séries e produções que reinterpretaram esses valores ao longo das décadas. É dentro desse elo histórico e cultural que a coleção Cinema Samurai ajuda a entender por que o Japão construiu uma das cinematografias mais influentes do mundo.
A Versátil Home Vídeo e o colecionismo
A Versátil Home Vídeo está no ramo de lançamentos de DVDs para colecionadores desde 1999. Ela conta com diversos títulos individuais e em coleções lançados em Box ou estojo simples. Eu descobri a Versátil em 2019, quando entrei no ramo do colecionismo pra valer.
Eu já gostava da cultura samurai desde tempos de quando eu era jovem, quando assisti a série, do gênero Henshin Hero, Lion Man em 1990 no programa Cometa Alegria, na Manchete. Nessa série, fomos apresentados ao Japão diferente de outras séries japonesas apresentadas nos programas Cometa Alegria e Clube da Criança com Angélica também na Manchete.
Enquanto nas séries contemporâneas fomos apresentados ao Japão da década de 80 do século XX, em Lion Man, somos transportados para uma fantasia do Japão do final do Período Sengoku. Como fui crescendo, fui descobrindo outra forma do Japão se expressar com o seu passado.
Games, cinema e o mergulho no universo samurai
Em 1993, chegou o jogo Samurai Spirits (Shodown no Ocidente) e fiquei mergulhado no universo samurai através de lendas e mitos japoneses apresentados no jogo. Fico mergulhado nos cenários e envolto nas músicas propostas pelo game. Conheci personagens fantásticos e me encantei por essas figuras tão onipresentes no nosso imaginário.
Mas meu primeiro jidaigeki (ou chambara) foi com Yojimbo, que aluguei numa locadora na época do VHS. O clássico de Kurosawa me fez conhecer outros “samurais” pouco conhecidos nos parcos anos 1990, onde a divulgação dessa cultura era praticamente nula e tinha um mercado MUITO nichado. Foi só em 2000, quando me mudei para o norte do Paraná que meu envolvimento com os chambaras aumentou. Simplesmente porque, depois de São Paulo, o norte do Paraná é a segunda maior colônia japonesa do mundo.
Ou seja, o envolvimento com a comunidade nikkey do norte do Paraná fez com que eu me envolvesse mais e mais com o Japão e sua história.
Trilha sonora, cinema e identidade cultural
E foi assim que comecei a me interessar mais pela cultura samurai. Quando em 2005 achei a trilha sonora do filme Ran no Sebo Capricho por míseros 5 reais (esse LP atualmente é vendido por mais de 150 dólares devido a raridade e a grandiosidade do filme), eu pensei: “é esse universo que quero pra mim”. Já gostava da trilha sonora da franquia Samurai Spirits, que uso, inclusive, para relaxar. Com o adendo de Ran, foi aí que me fixei.
A formação da coleção pessoal
Minha coleção de chambaras começou com o clássico Harakiri, de Masaki Kobayashi, em 2019. Ali foi amor a primeira vista. O combate final naquele platô com uma forte ventania e com o vento balançado o gramado é hipnotizante. Encontrar em cenários do tipo uma paz num período turbulento onde a violência predominava me fez bem.
A busca por outros títulos me fez descobrir a Versátil Home Vídeo. Fui pegando vários títulos de chambaras apresentados pela distribuidora nos últimos 5 anos. Peguei todos que encontrei e continuo comprando mais e acompanhando os lançamentos da distribuidora.
A coleção Cinema Samurai
Quando descobri a coleção Cinema Samurai, percebi que já estava envolto numa aura de mistério, fervor e honra que emanava dos samurais dos filmes dessa coleção. Fora os outros títulos individuais, como Kagemusha, Ran, Trono Manchado de Sangue e entre outros que foram aparecendo. Tenho um total de uns 300 filmes de vários tipos espalhados em 150 DVDs (em boxes e individuais).
Mas o gênero que mais predomina é o chambara. Eles ocupam mais ou menos 45% da minha locadora particular, seguidos pelos bang-bangs (que predominam 35%). E sou muito grato a Versátil por ter me apresentado a esse gênero e por me presentear com tantos lançamentos do gênero. Ainda me faltam alguns, mas serão adquiridos no decorrer dos anos.
O livro e o olhar crítico
E esse livro escrito pela equipe de críticos e curadores da Versátil só mostra que a distribuidora não brinca em serviço. Com profissionais competentes em campo, vimos do que ela é capaz ao divulgar em doze resenhas sobre os principais lançamentos dela nos últimos anos para o gênero chambara.
As doze obras apresentadas aqui foram postas no livro em ordem cronológica, mostrando a equidade das mesmas, não uma se mostrando superior a outra. Afinal, o cinema japonês é rico e nos mostra mais do que filmes de monstros destruindo maquetes de cidades japonesas ou de estudantes revoltados ou até mesmo super-heróis intergalácticos.
É sobre esse prisma de mostrar a essência do cinema japonês que ficamos conhecendo um pouco do passado do país em questão. Tudo começou com o teatro Noh e depois o Kabuki. E isso é salientado pelos doze críticos que se empenharam em fazer uma pesquisa acurada sobre doze obras consagradas do gênero. E ainda nos apresentam curiosidades de cada uma das obras listadas e com fotos que exaltam a beleza e o despudor dos samurais no cinema.
É um livro rico que pode ser usado como referência para obras do gênero. No final tem uma lista cronológica de cada filme do gênero chambara lançado pela Versátil em ordem cronológica que pode ajudar o colecionador ávido por tais lançamentos para caçar (vi ali lançamentos que eu NEM imaginava que tinha). E um glossário básico com termos japoneses encerra o livro com chave de ouro. O Cinema Samurai é rico.
Até o presente momento, estou com todos os volumes lançados e consegui o volume 11 que adquiri na pré-venda. Ou seja, só esperando chegar para sentir o fio da espada penetrando nas minhas emoções a cada filme assistido.
Para saber mais sobre cinema samurai, chambaras e a influência dessas obras na cultura japonesa, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



