Assassinato

Assassinato traz xenofobia, samurais e Revolução Meiji às telas

Toku Blog YouTube

O Japão do início da Revolução Meiji nos rende momentos maravilhosos do cinema japonês. Um desses resultados é o aclamado filme Assassinato de Shinoda Masahiro, que explorou a “nova onda” do cinema europeu. Para quem não sabe, as “nouvelles vague” (“nova onda”) é um tipo de produção mais intimista, que visa deixar o filme com um toque pessoal e “cult” para o espectador. 

Geralmente, produções desse tipo visam ser mais simples, com pouco orçamento. Mas, o que vimos aqui foi um trabalho grandioso e majestoso por parte de Shinoda-san, que deixou o tom intimista no roteiro e construção do nosso emblemático protagonista.

Sim! O filme é uma sucessão de “flashback” entre o envolvimento do protagonista numa rede de intrigas políticas. Qual a função dele? O que ele pretende? Isso só é revelado nos 10 minutos finais do filme. Mas, fomos premiados com o roteiro de Yamada Nobuo e Shiba Ryutaro que trabalhou com a ambigüidade do nosso protagonista. 

O filme começou em aberto, com uma leitura de registros históricos relacionados ao período pré-revolucionário com a chegada do Comodoro Perry no porto de Uraga, em Tokyo. Esse é o plano de fundo que fez o início do filme. A dupla de roteiristas usou a narrativa para flagrar e denunciar o histórico de xenofobia praticada pelos japoneses no período e cujo relato é famoso. 

O pano de fundo histórico da Revolução Meiji e a xenofobia no Japão

Sim! O Japão antigo era bem xenofóbico. Hoje ainda se encontram relatos de estrangeiros que moram no Japão que são tratados com desprezo, mas são casos isolados. Nada que tire o mérito do país em sua grandiosidade e respeito aos cidadãos estrangeiros (bastam que eles se comportem no país em que estão). Mas a xenofobia dos japoneses no período de 1863 para baixo era bem forte e fazia parte do costume japonês.

E é nesse cenário que surge Hachiro Kiyokawa, interpretado pelo já veterano em filmes de samurais, Tetsuro Namba. Ele é mocinho? Ele é vilão? O que ele é? Os roteiristas deram um tom intimista na construção do personagem. Uma hora se mostrava um exímio combatente. Em outra, um covarde. Uma hora gostava de matar. Em outra, não aceitava a ideia de que tinha matado alguém. Uma hora se mostrava violento. Em outra, mostrava uma personalidade serena. É um dos samurais mais emblemáticos da história do cinema chambara. 

A construção do protagonista Hachiro Kiyokawa e a atuação de Tetsuro Namba

A função do filme é deixar que a personalidade do personagem fique aberta a muitas especulações de quem assiste ao filme. É um protagonista complexo. Tudo girava em torno dele. Muitos morriam e matavam por ele. A caracterização de Namba foi ótima por causa disso tanto no aspecto físico como emocional. 

Fomos até premiados por uma das raras cenas em que o ator gargalha, visto que a maioria dos seus personagens eram sisudos e melancólicos. E o ator tinha um semblante sério, por isso foi grata a surpresa vê-lo gargalhando pra valer. Acredito que foi um dos melhores personagens de Namba. Dava gosto vê-lo usar aquele chapéu de palha em cena. 

Uma coisa que Shinoda-san fez questão de cortar foi a presença de uma personagem feminina central. Só teve uma personagem no filme inteiro e sua presença não dura nem 10 minutos. O filme foi dominado pelos homens em cena. Claro, tivemos muitas mulheres figurantes. Mas nenhuma foi comprometida em cena. Quem assistir ao filme buscando uma presença feminina marcante vai se decepcionar e muito. Isso era de praxe no cinema chambara da época, onde o público era majoritariamente masculino e achava que mulheres em embates de samurais iriam atrapalhar o que os homens queriam ver: combates de espadas!

Loja-Toku-Blog

Coreografias de luta, cenários e trilha sonora marcante

E aqui temos muitos combates. Mas muito mesmo! Muitos efeitos especiais foram usados para mostrar as cenas de corte e violência. Foi o filme que prezou e muito por belas coreografias de luta e cenários suntuosos. Para quem procura um chambara que preze pelo lado da ação, com efeitos pirotécnicos e muitos embates de espada, talvez esse filme seja especial. Tem muita coisa boa encontrada nas cenas de combate entre os personagens. E os cenários desenhados por Osumi Junichi deixaram os combates mais belos. 

Cada combate tinha um cenário diferente. Parece um jogo de videogame de luta que retrata o Japão antigo, onde um personagem é selecionado e a cada vitória, avança para uma nova etapa. Além dos cenários, fomos premiados por uma bela trilha sonora composta por Takemitsu Toru, que usou de músicas mais tradicionais. Ou seja, praticamente todas as músicas de fundo do filme tiveram toques mais japoneses que deixaram o filme mais rico.

Outra coisa que tive que notar e elogiar bastante foi o excelente trabalho de caracterização de figurinos. Os figurinos foram desenhados por Kato Harue. Eu tenho dificuldade em reparar em figurinos de filmes em preto e branco. Mesmo não vendo as cores, pude notar um trabalho primoroso e cuidados no figurino apresentado, tanto do elenco principal como dos figurantes. A figurinista usou kimonos de tom mais claro para as mulheres e mais escuro para os homens. Foi um contraste interessante.

Assassinato
Cena de Assassinato

A inovação na linguagem cinematográfica de Masahiro Shinoda

Uma coisa que deixou o filme mais intimista foi o uso de câmera em primeira pessoa em muitos momentos, principalmente na cena final. Um recurso até então inédito para a época no cinema japonês. Se o personagem estivesse correndo, a visão do cameraman era como se estivesse galopando, mostrando que ele estivesse correndo. 

Por isso, vai haver momentos em que a tela fica “tremendo”. Porque o cameraman está correndo para simular o personagem que está correndo. Achei uma novidade interessante para o cinema japonês e muito bem executada pelo cineasta. Quem for assistir, pode se sentir como um dos personagens do filme. 

Por que assistir Assassinato de Shinoda Masahiro?

Assassinato é um filme bem cult para quem gosta de chambaras. Não chega a ser grandioso como outros da época. Mas é bem aclamado pela crítica e pelo público. É um filme onde o foco é numa trama ardilosa e um roteiro ambíguo. 

As novidades do filme foram bem executadas. Não chega a ser um filme perfeito, pois tem momentos do longa em que o espectador fica meio perdido. Não se sabe o que é flashback e o que é o presente no momento. E isso deixou o filme meio enfadonho em alguns momentos. Mas, não é um filme ruim. Quem for assistir pensando em ver cenas bem coreografadas de lutas, vai gostar. Tem muitas lutas e muitos saques de espada, mostrando o tom violento da história. 

Ou seja, é um prato cheio para quem não tem preconceito com o “machismo” tão presente no cinema da época. Pode-se tirar muito proveito disso.

Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!

quadrinhos de tokusatsu

Quer receber conteúdos de tokusatsu no seu e-mail?

Então, assine a nossa newsletter!

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.