A Essência da História do Japão: mitologia, achismos e controvérsias

A Essência da História do Japão: mitologia, achismos e controvérsias

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Séries de tokusatsu frequentemente retratam o Japão como uma nação forjada entre deuses, heróis e forças da natureza, herança direta das narrativas mitológicas que moldaram o imaginário japonês. A Essência da História do Japão parte desse mesmo ponto de origem, mas segue por um caminho controverso ao interpretar, justificar e relativizar episódios centrais da história do país ao longo dos milênios.

Um intelectual de peso e uma proposta ambiciosa em A Essência da História do Japão

Shouchi Watanabe foi um proeminente filólogo e historiador japonês que nasceu em 1930. Ele teve o privilégio de estudar nas melhores universidades do mundo e isso lhe rendeu alguns méritos em vida. O livro que li foi um resumo de pesquisas e testemunhos históricos que o autor teve em vida e sua experiência com a história do Japão. O autor teve uma experiência de vida elogiada e viveu imensamente pelo prazer do livro.

Mas aqui nesse livro, ele transportou para as páginas um pouco de sua vivência. Percebi no conteúdo do texto algo mais subjetivo, tentando justificar as atrocidades da história do Japão, principalmente no Século XX.

Mitologia como alicerce da narrativa histórica

O autor começa usando as referências mitológicas. Afinal, segundo o Kojiki, o inanimado e o animado se fundem na formação do arquipélago japonês. Tudo começou com o fato de Izanagi e Izanami terem tirado do mar por intermédio de uma lança as ilhas do arquipélago. Depois surgiram outras divindades do panteão xintoísta, formado por Amaterasu e Susanoo. A ideia aqui é transformar o abstrato em algo real.

Depois vieram as descendências divinas que se estabeleceram no arquipélago. Aqui, o autor deu destaque ao fato dos imperadores vierem de uma linhagem proveniente de Amaterasu. Embora Shoichi apresenta certo ceticismo com relação as referências mitológicas, ele fez questão de incluí-las em seus relatos. Afinal, mitologia é a espinha dorsal do Kojiki, que é considerado o primeiro livro da História do Japão.

Subjetividade, nacionalismo e relativizações perigosas

O autor usou tópicos bem resumidos para contar essa história. Percebi em alguns parágrafos certo tom de “achismo” em algumas partes. Muitas frases soaram subjetivas e opinativas, dizendo o que aconteceria se o “Japão fizesse isso ou aquilo”. Aqui ele deixou a escrita mais superficial. E isso não foi bom para a imagem do historiador.

Teve um capítulo que ele praticamente dedicou umas seis páginas para dizer “o que aconteceria SE o Japão fizesse isso”. Ele minimizou coisas importantes, como as Bombas em Hiroshima e Nagasaki ou até mesmo a ferocidade de Oda Nobunaga. Percebi aqui um tom de nacionalismo exagerado.

Em muitos momentos, o autor tentou minimizar e justificar as atrocidades cometidas pelos japoneses contra ainus, europeus, estadunidenses, chineses e coreanos. Sabemos que o Japão não foi uma “nação demônio”, mas também está longe de ser uma “nação santa”. Nesse ponto, o autor mostrou parcialidade.

O “arco-íris” da história e suas fragilidades

O prefácio e o epílogo comparando a História do Japão a um arco-íris visto depois de uma chuva torrencial me soaram como algo utópico. A tentativa de afirmar que apenas o Japão possuiria esse “arco-íris” histórico soa prepotente. Todas as nações possuem seus ciclos de glória e queda.

Sobre o livro em si, faltou uma revisão mais precisa por parte dos revisores. Muitas palavras e frases mal construídas na tradução dificultam a compreensão. A ausência quase total de bibliografia, com exceção do Kojiki, compromete a credibilidade do conteúdo. Os “achismos” do autor para fatos históricos deixam a leitura frágil do ponto de vista acadêmico.

Considerações finais

A Essência da História do Japão é uma leitura rápida, com muitas gravuras e fotos que enriquecem visualmente o volume. Ainda assim, a fragilidade argumentativa coloca o conteúdo em xeque. Vale a leitura como registro de uma visão subjetiva e nacionalista, mas não como fonte principal para o estudo da história japonesa. Outras obras são fundamentais para equilibrar essa perspectiva.

Se você se interessa por como mitologia, história e cultura japonesa se refletem em narrativas modernas, vale conferir aqui também outros meu conteúdos do Toku Blog sobre tradição, imaginário e identidade do Japão.

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