13 Assassinos: análise de um clássico que marcou o cinema japonês
No filme “Ju-san ni Shikoku” (ou “13 Assassinos“), Lorde Naritsugu comete várias atrocidades até que um ministro do Shogun contrata 13 guerreiros para tentar eliminá-lo.
Desde 1954, o cinema japonês jidaigeki (chambara) tem sido usado como expoente no pós-guerra para tentar recuperar o orgulho japonês. Afinal, depois da derrota do Japão na Segunda Guerra, a sociedade japonesa ficou estagnada e a mercê da invasão de produtos estadunidenses em sua cultura.
Mas, com a aclamação de Sete Samurais com um Oscar em 1955, os estadunidenses se renderam ao estilo de cinema até então desconhecido por eles que renderam muitos frutos. Tanto que muitos diretores acabaram aflorando nos estúdios japoneses para a produção em massa de filmes que retratam um pouco dos heróis japoneses do passado.
E a Toei, com sede cinematográfica em Kyoto, resolveu apostar nesse pote de ouro que tinha tudo para satisfazer a avareza dos produtores que viam nos jovens da época, uma forma de redescobrir o orgulho nacional e tentar exaltar um pouco a sua história.
A inspiração em Os Sete Samurais e a direção de Kudo Eiichi
Nesse primeiro filme da trilogia Revolução Samurai, dirigido por Kudo Eiichi em 1963, o diretor conseguiu recriar momentos trágicos da história do Japão com uma leve inspiração de Os Sete Samurais.
Na trama, um grupo de samurais trama contra um senhor corrupto. Eles usam de artimanhas para encurralá-lo e eliminá-lo. Para isso houve sacrifícios. Onde vimos isso? No premiado Os Sete Samurais de Akira Kurosawa. Se foi uma inspiração real ou não de Kaneo Igami, não sabemos. Mas, os elementos estão ali.
E Igami-san não se permitiu inibir desse padrão de se fazer roteiro de jidaigeki para impressionar o espectador. E o resultado foi primoroso. A aliança entre Kudo-san e Igami-san levou para as telas um trabalho digno. Não sei se os outros filmes da trilogia garantiram esse ar soberbo, pois não os vi ainda. Mas essa foi só uma amostra do talento excepcional do diretor e do roteirista em ditarem um cinema atemporal, que ultrapassa gerações.
Estrutura narrativa e elementos técnicos de 13 Assassinos
O filme é dividido em três partes, num estratagema semelhante ao usado por Hitchcock em muitos dos seus filmes. No início, vemos um prelúdio de como seria o decorrer da história, sem ação de nenhuma espécie. No meio, vemos o planejamento do clímax e no final temos a ação. Aliás, o ponto forte do filme foram os 40 minutos finais, que mostra como um chambara deve ser feito. Foram belos embates e muito bem coreografados. Tudo porque Kudo soube captar como devia ser o jeito de ser do samurai.
Muitos fatores no filme fizeram com que o telespectador ficasse absorvido com o que é apresentado ali. Um exemplo foi a direção de arte criada por Igawa Norimichi. Os cenários desenhados pelo artista deixaram a caracterização do filme mais crível e mais envolvente.
Houve uma boa seleção de lugares para locação, com o intuito de resgatar um pouco do Japão que não estamos acostumados a ver. O público ocidental foi surpreendido por belas paisagens japonesas escondidas nos vários prédios de concretos do Japão que estava se reerguendo. O resultado foram paisagens de encher os olhos.
Figurino, ambientação e trilha sonora
Outro trabalho excepcional do filme foi a bela trilha sonora arranjada pelo maestro Ifukube Akira. O artista optou por recorrer ao tradicional para compor a trilha sonora do filme. Músicas inspiradas no teatro Noh (que inspirou os roll calls de tokusatsu) fizeram parte das cenas do filme.
Uma das cenas mais belas foi a que o nosso protagonista interpretado por Kataoka Chiezoo tocou um shamisen para o personagem de Satomi Kotaro para inspirá-lo. Foi uma das cenas mais lindas que já vi no filme e que representa o resgate da história do país. A música do shamisen ressoando pelo saguão do cenário foi envolvente e cativante.
Outro fator que inspirou o telespectador a voltar para o Japão Feudal foi o figurino de Mikumi Goo. O figurino contou com belos kimono, hakama e yukata. A caracterização contou com espadas cenográficas para compor as cenas.
Representação feminina e impacto cultural
Kudo-san não se intimidou com o que mostrou. Mesmo com fortes cenas de ação e violência, o foco foi mostrar a sensibilidade de uma época onde a classe baixa sofria. A gente sente piedade de cada personagem mostrado. A quase ausência de personagens femininas também foi um marco. Praticamente, numa leva de quase 40 personagens, só vemos a presença de 4 e sendo que apenas 3 tiveram destaque.
O tempo de cena delas foi curto. Em 120 minutos de filmes, a presença feminina se resume a no máximo 10 minutos com as 4 moças aparecendo em espaços de tempo conveniente para elas. Infelizmente, na época, a participação feminina era nula. O Japão menosprezava o trabalho feminino desde a época feudal. Só a partir da década de 1980 que o país pôde se libertar (não totalmente) da alcunha de ser “machista” e ter mulheres protagonistas em produções.
Mas, nas décadas anteriores, a participação feminina era praticamente nula no cinema chambara. O foco do diretor era levar o público masculino para as telas com cenas voltadas para expressar a virilidade japonesa. Tanto que o galã da época, Satomi Kotaro, inspirou muitos japoneses por representar a forma de que a recuperação do Japão na época dependia do vigor juvenil.
O personagem de Satomi-san (Shinrokuro Saimada) é um jovem sustentado pela amante e que precisa decidir se viveria uma vida acomodada ou um estilo de vida de um guerreiro, onde precisava encontrar um propósito pra viver.
Por isso, achei o personagem de Satomi-san o melhor e o mais complexo do longa. Afinal, a juventude da época precisava desse estímulo para ajudar a reerguer o país. Uma coisa interessante que teve no filme é que, apesar do filme ter um vilão descarado, ele não foi o real antagonista. Parece um paradoxo, né? Mas não é! Quem assistir ao filme vai entender o propósito de Kudo-san para com esse personagem.
Legado de 13 Assassinos para o cinema japonês
O filme 13 Assassinos abriu os olhos dos japoneses para um estilo de cinema que agradou tanto o público pátrio como o internacional. O filme é violento e leva a questão da honra a extremos. Um elenco entrosado e bem afiado. O diretor se tornou um dos mais respeitados de todo o Japão por causa desse filme, pois esse foi seu trabalho de estreia e um dos melhores do gênero.
Quem gosta de Jidaigeki, com certeza irá apreciar essa obra de arte. O filme nos rende bons momentos de viagem ao Japão onde a efêmera flor de cerejeira representa a vida de um samurai.
Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



