Rebelião: Kobayashi e a ousadia de colocar a vida acima do Bushido
Que Kobayashi é um diretor de cinema japonês que preza mais pela parte estética de contar uma história de samurais nas telas do que filmes com exageradas cenas de lutas, isso é um fato. Assim como em Harakiri (1962), ele usa Rebelião para subverter a ideia romântica e nacionalista dos samurais criada pelos próprios japoneses após a derrota na Segunda Guerra.
Ou seja, a ideia de “samurais santificados” pelas maiorias dos filmes jidageiki é apenas uma ideia romântica. Não condiz com o que foi na realidade. E aqui, Kobayashi usa a mesma alegoria para representar a figura do samurai. Sabemos que os samurais eram guerreiros leais e muito cruéis que não se importam com sentimentos como amor e ternura. Eles só queriam ser reconhecidos como guerreiros valorosos, ferozes e violentos sem questionar ordens superiores (quem conhece a história de Nobunaga Oda, por exemplo, sabe da fama de feroz que o combatente tinha).
Rebelião e o protagonismo feminino
Mas, em Rebelião, embora a figura do samurai esteja presente, não representa o principal tema do filme. Aliás, a película gira em torno de uma mulher e seu destino. Isso torna o filme uma coisa rara de se assistir, visto que o Japão é conhecido por ser um país que rebaixa a condição da mulher (e era mais forte na década de 1950, quando a figura feminina era restringida a ser dona de casa e não tinha liberdade trabalhista).
Foi muita ousadia de Kobayashi usar o feminino como centro da ação desse filme, visto que, no Japão Feudal, a mulher não tinha muita opção de vida a não ser dada para satisfazer a luxúria de homens sedentos pela lascívia. Embora os personagens de Toshiro Mifune e Go Kato sejam os principais, a trama gira em torno do destino e sentimentos de uma mulher.
A crítica ao Bushido e o incentivo à vida
Coube a Yoko Tsukasa criar uma interpretação delicada e ao mesmo tempo forte para a sua Ichi, a personagem central da trama. E Ichi foi usada por Kobayashi para criticar o falho e cruel “código de honra” dos samurais (o Bushido). Sim! Em muitos dos seus filmes, Kobayashi estimulou o amor a vida. Incentivou os japoneses a aproveitarem o viver. E para deixar o fardo no chão e se libertar de amarras que impeça o telespectador de viver. E isso é um ponto a favor do cineasta. Kobayashi amava a vida. Vivia pela vida. E queria que todos que assistissem seus filmes se apaixonassem pela vida.
E essa sua crítica é válida. O Japão é uma nação que tem a desvalorização da vida como parte integrante da sua cultura. Valoriza mais o lado racional da filosofia do que o sentimento do coração. Japoneses não costumam demonstrar sentimentos ao público. Ver um cineasta mostrando num filme de samurai que japoneses possuem sentimentos chega até ser um acontecimento raro e que merece ser comemorado.
No começo, encaramos o filme como “mais um jidageiki que vai prezar a filosofia da arte marcial”, ao mostrar o treinamento e exibição marcial num campo aberto. Mas, à medida que os minutos foram passando, vimos que o cineasta deu brecha para algo mais sentimental. Mais passional. Não é um chambara qualquer. É um chambara que tem como objetivo, usar a alegoria do samurai para mostrar um pouco de ternura.
Parece um paradoxo, pois a ideia de samurais é que sejam guerreiros e que vivessem só para matar e morrer. Mas aqui, Kobayashi desenvolveu uma trama focada no valor interno. É como, do mesmo modo que em Harakiri, a figura do samurai feroz é ilógica e inadequada para a sociedade japonesa. Ele tirou o óbvio dos chambaras tradicionais aqui.
Como dito um pouco acima, embora os protagonistas sejam personagens masculinos, é no feminino que tudo é centralizado. Para se ter uma ideia, o nosso protagonista é submisso a sua esposa (o que seria inaceitável para a realidade da época). Kobayashi soube levar humanidade e liberdade para o telespectador com muito sentimentalismo. Antes de serem samurais, são humanos. E eles valorizam os sentimentos. Pelo menos o que foi mostrado no filme.

Técnica e estética: trilha sonora e cenografia
Analisando a parte técnica, destaco duas coisas: a trilha sonora de Takemitsu Töru e a direção de arte de Muraki Yoshiro. Por quê? Bem, o casamento da trilha sonora e a cenografia soube transportar o elenco e o telespectador para o Japão do século XVIII. A trilha sonora foi composta com arranjos originais japoneses. Takemitsu não deu brecha para algo ocidental como vimos em muitos filmes nessa temática. Encontramos som de biwa, taiko, shamisen, sakuhachi, koto e entre outros instrumentos japoneses. E isso é belo.
Músicas calmas nos momentos de ternura e músicas agitadas nas cenas de ação. O ouvinte que pegar essas músicas para escutar possa ter uma sensação única de paz ao ouvir a trilha sonora do filme (será que eu a acho para adquirir?). E sobre a cenografia, Muraki-san soube pesquisar e arquitetar belos cenários.
A Toho soube investir em cenários que deixassem o filme o mais crível e absorto no tema possível. Fora os cenários externos (como o da última batalha) escolhidos a dedo para impressionar ainda mais o telespectador que gosta de viajar para o passado através de um baque visual.
Roteiro, elenco e impacto cultural
O roteiro de Shinobu Hashimoto, baseado na novela de Yasuhiko Takiguchi (no caso, Hairyozuma Shimatsu) nos leva a ficar revoltados com o que é passado na tela. A história é contada de um jeito que impressiona o telespectador, que se apega a muitos personagens (eu mesmo me apeguei a três em especial). O telespectador lamenta pelo destino de alguns personagens.
As interpretações de Mifune e Tsukasa são majestosas. Eles conseguem passar todo o dilema e o sentimento de querer viver dos seus personagens. E do mesmo que eles contam a história, o telespectador desperta um pouco de ira inimaginável pelo que o Japão feudal representa para o Ocidente. E Kobayashi levou essa crítica a sério.
Com uma direção precisa e coesa, não temos o que questionar de Kobayashi retratar a decadência do que representa o Bushido para ele. É um belo filme e mostra que, apesar dos pesares, vale a pena viver e lutar pela vida.
Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



