Guia Visual Definitivo de Jaspion

Muito além da TV: como o Guia Visual do Jaspion resgata a febre dos anos 80 e 90

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O universo do tokusatsu no Brasil é alimentado por uma paixão avassaladora que atravessa gerações. Para quem cresceu na era de ouro da TV Manchete, os heróis de armadura reluzente, monstros gigantes e histórias de honra moldaram memórias inesquecíveis da infância. É nesse cenário de pura nostalgia e celebração da cultura pop japonesa que obras dedicadas a resgatar essa história ganham um valor imensurável para os fãs do gênero: o Guia Visual Definitivo de Jaspion.

Guia Visual Definitivo do Jaspion (Ricardo Cruz, 2024)

Uma análise detalhada da enciclopédia informativa que revela os bastidores do herói que marcou gerações na TV brasileira.

Contexto da obra e o autor

Você é fã de Tokusatsu? Você é fã da Manchete? Você é fã da Angélica? Você é fã do Cometa Alegria? Você é fã do que passou na TV, nos Quadrinhos e na Música infanto-juvenil dos anos 1987 até 1992? Então vocês precisam ter esse Guia URGENTE na estante de vocês. Temos muitas coisas para avaliar.

Ricardo Cruz é considerado um dos maiores especialistas de Tokusatsu no Brasil e é usado como ponte entre heróis e público nos grandes eventos. E ele é apaixonado por Jaspion e pelo Japão. Prova disso é que ele aprendeu o idioma e conseguiu ser um dos primeiros brasileiros a fazer parte de uma banda japonesa famosa (podemos dizer que ele foi o primeiro brasileiro não-descendente a fazer parte de uma banda japonesa. O primeiro brasileiro mesmo é Carlos Toshiki no grupo Omega Tribe nos anos 1980).

Ricardo Cruz tem conhecimento e, por ter contatos no Japão, resolveu investir no ramo da literatura enciclopédica com Guias Visuais. O primeiro tinha que ser o Jaspion, nosso maior expoente japonês de séries de super-heróis que marcou uma geração nascida a partir dos anos de 1980.

Vale lembrar que Tokusatsu já teve uma fase por aqui nos anos 60 e 70, com National Kid e uma leva de séries que vieram junto. Mas a época mais prolífera para o gênero foi, sem sombras de dúvidas, do ano de 1988 até 1992, na emissora Manchete, dentro dos programas da casa. E é nessa parte que o livro veio em ótima hora para quem gostava da emissora e dos programas infantis da casa, com suas séries animadas e tokusatsu.

E esse guia é bem completo, comparado ao que vimos em revistas do gênero que apresentavam pontos de forma resumida. Ricardo Cruz fala com conhecimento de causa. Ele é dono de uma noção gigante do tema. Mas ao contrário de outras produções que abordavam os tokusatsu desde a sua origem no teatro Kabuki e no cinema japonês na segunda metade do século XX, aqui Ricardo se concentrou só no nosso herói que aportou aqui 22 de Fevereiro de 1988, dentro do programa da Angélica na Manchete.

Personagens principais e o aspecto visual

Ricardo explanou tudo e mais um pouco, com correspondentes quentes do Japão dando ótimas informações para o público sobre o herói. O Guia foi dividido em partes. A primeira parte é dedicada a apresentação de personagens principais da trama. Os textos apresentados nessa parte são bem resumidos.

O que chama a atenção nessa parte são fotos inéditas em excelente qualidade. Fotos que ocupam as páginas inteiras com textos encrustados em pontos estratégicos sem causar um impacto visual negativo. Ou seja, podemos ler os textos e apreciar as imagens com grande prazer, sem deixar que o tédio nos domine. E para quem gostava da série como eu, essas fotos são ótimas para o nosso deleite. Fomos bem surpreendidos nessa seção.

Guia de episódios e nostalgia

A segunda parte é sobre um resumo e pontos altos dos episódios. Tipo aquelas antigas revistas brasileiras que apresentavam resumos das novelas, tão populares nos anos 1990.

Cada episódio nos mostrava também uma miniatura do monstro da semana e dados importantes de onde surgiu o nome do monstro em questão. Listagem de inimigos, de aliados e surgimento de armamentos são apresentados aqui. As páginas mostravam certa particularidade que deixou essa parte rica e nos fazendo viajar no tempo.

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Entrevistas e bastidores do Japão

As próximas partes são mistas. Entrevistas com diretores e parte de elenco são os pontos fortes. Embora muitas pessoas vão sentir falta de uma entrevista com o Kurosaki (que estava vivo na época em que o livro estava sendo produzido), ele já tinha decidido nunca mais falar de Jaspion e de seu tempo de trabalho artístico.

Mas as entrevistas com Tsukada-san, Watari-san e Kushida-san são tão ricas de detalhes e amor pelo público brasileiro que compensaram a ausência dos dois principais (Kurosaki-san e Haruta-san, que tiveram seus motivos para não falarem da série com a gente e devem ser respeitados).

Uma das partes mais legais do livro é a entrevista com “seu” Toshi, que contou como chegou pra pegar a série no Japão para o Brasil. O contato dele com a Manchete e a insistência dele de escolher a Angélica como apresentadora de Jaspion e Changeman me emocionou. De que jeito? Bem…. sou um mero fã de Tokusatsu. E um mero fã da apresentadora.

Ver que a presença dela na Manchete foi essencial para trazer a série é tocante. Afinal, juntou duas coisas que me marcaram a infância numa entrevista só (mesmo sabendo que Angélica nunca gostava das produções japonesas em seu programa, mas ela não tinha autonomia para decidir o que exibir ou não).

Produtos licenciados e febre dos anos 80

Outro ponto interessante foi a matéria dedicada aos produtos licenciados. Como toda criança de 08 anos, eu tive alguns produtos, como camisas, álbuns de figurinhas e brinquedos. Alguns itens sobreviveram ao tempo comigo, como o álbum de figurinhas, o LP e parte das cartas de um jogo de memória (que foi citado) do herói. Foi muito emocionante ver produtos que eu tive quando criança estampados ali.

A menção à dinâmica música Jaspion-Changeman da banda Trem da Alegria também é emocionante, pois escutava muito quando tinha meus 8 anos. Vale salientar também a importância de exaltar os produtos “bucaneiros”, que tinha aos montes, como carteiras, estojos e álbuns de figurinhas. Mas na época não se tinha noção do que era certo ou errado para comercializar (até hoje, dependendo da área, é assim). Muitos tiveram esses produtos “alternativos” e ninguém se incomodava se era oficial ou não. Citar redes famosas dos anos 1980, como Mesbla e Glasslite também me fez viajar no tempo.

Impacto cultural, dublagem e legado

A parte mais triste foi a última, quando foi mencionado a Ascensão, Glória e Queda do seriado no Japão e no Brasil. Como é de conhecimento de todos, Jaspion não teve glória no Japão e é até esquecido por lá. Mas no Brasil ele ganhou ar divino. Ricardo falou dos momentos da série na TV Brasileira e de como ele contribuiu para a chegada de novos heróis tokusatsu e animes nos anos 1990.

A importância do Circo Show na popularização do herói no Brasil nos anos de 1989 até 1992 foi algo avassalador. Fotos dos bastidores foram recuperadas e acrescentadas nas páginas. Entrevista com o ator e dublador Carlos Takeshi também é digno de nota.

O ator, que deu vida ao personagem no Brasil com sua voz chegou a lamentar a ausência de artistas Nikkei na programação brasileira e a desvalorização da “raça amarela” para outros conteúdos (senti uma indireta para a Globo, emissora que Takeshi trabalhou por anos). A visão estereotipada de Japonês na televisão levou o afastamento do ator na mídia televisiva, fazendo com que ele recusasse muitos trabalhos. Tivemos momentos engraçados, como o relato do Takeshi no pavoroso Programa do Gugu nos anos 1990, que foi obrigado a vestir a armadura do herói no palco.

Conclusão

Hoje, Jaspion é esquecido pela grande massa. Mas para quem continua no meio nerd e é apaixonado por nostalgia e infância, ele continua cativo na memória dos fãs. Ricardo Cruz lançou outros guias visuais de tokusatsu (Jiraya e Kamen Rider Black e está em produção o de Changeman), que espero adquirir e lê-los o mais breve possível.

O autor fala como um apaixonado e fã por essas séries que mexem com o imaginário da criança que nasceu nos anos 1980. E ler esse livro com imagens, curiosidades, homenagens e consideração ao nosso imaginário é marcante. Dia das Crianças está chegando. Que tal darem uma chance a sua criança interior pra resgatar esses momentos mágicos e revolucionários da TV Brasileira?

Se você curtiu essa viagem no tempo, aproveite para conferir aqui outras resenhas minhas aqui no Toku Blog sobre as grandes produções que marcaram a nossa infância!

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