A Espada da Maldição

A Espada da Maldição e a desconstrução da figura samurai

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A história de A Espada da Maldição era para ser uma duologia ou trilogia. Afinal, a obra de Okamoto foi a quinta versão da novel Daibosatsu Toge para o cinema japonês. Uma das novels mais longas da história do Japão, a obra foi abruptamente interrompida com o falecimento do autor original (Kaizan Nakazato) antes do término. Tentaram fazer diversas versões da obra, mas sem êxito. E aqui também temos a falta de êxito. Apesar de bons momentos com uma direção de arte primorosa, o filme ficou vago em alguns momentos. Mas isso é algo muito subjetivo. 

O diretor pegou um personagem pronto, dando certa ambigüidade em seu caráter. Ele mata sem escrúpulos. Ele é um anti-herói. Não é um protagonista propriamente dito. Está mais para ser um antagonista. Mas tudo gira em torno do desvio de caráter de Tsukue, o principal da película. A cena de abertura já começa com seu personagem eliminando um peregrino sem motivo algum. E esse evento o permeia durante todo o filme, visto que personagens conectados com esse peregrino aparecem durante a película. O filme é escrito e apresentado em fascículos. 

Tudo isso graças a montagem de Kuroiwa Yoshitami, que soube captar a essência das filmagens e do roteiro adaptado de Hashimoto Shinobu. Mas peca pelo modo em que foi produzido.

A adaptação de Okamoto e o peso da obra original

Okamoto não queria fazer o filme. Não estava animado. Mas fez por exigência da Toho. O filme apresentou os samurais sendo o mais próximo do que eram. Enquanto a figura do samurai era romantizada em muitas obras antigas e contemporâneas, aqui, nosso personagem principal é simplesmente mau e comete crimes hediondos. Não perdoa nem idosos, mulheres e crianças. 

A ideia aqui é que saia a imagem da figura honrada de um samurai, sendo substituída por uma figura malévola, sem nenhum traço de piedade. O nosso protagonista é assim. A missão de Okamoto aqui é transformar a figura do samurai fora do arquétipo que é montado pela própria mídia japonesa da figura mais emblemática do seu turvo passado. Ou seja, adeus ao estereótipo. E bem vindo a figura turva!

A direção precisa de Okamoto contou com o auxílio de dois astros do cinema samurai da época: Tatsuya Nakadai e Toshiro Mifune. A presença desses dois astros já vale a pena assistir ao longa. Embora não houvesse um embate físico entre os personagens dos dois, só a presença dos dois em tela já valeu a pena. Mifune estava irrepreensível e protagonizou uma das cenas mais potentes do cinema samurai da época. 

Aquela emboscada durante uma tempestade de neve foi sublime. O ator estava em sua melhor forma física e nos apresentou belas lutas muito bem executadas e coreografadas. O mesmo ocorre com Nakadai. Estamos acostumados a ver Nakadai no papel de samurais mais “brisados” e éticos. Ele soube dar profundidade só no olhar de seu inescrupuloso Tsukue. E seus movimentos com a espada deixam as lutas mais emblemáticas. Ambos os atores já eram “samurais” experientes através de produções anteriores. 

Mas a direção de coreografia de Ryu Kuze deixou o modesto personagem de Mifune e o sociopata personagem de Nakadai mais majestosos em cena. E isso conta a favor.

Um samurai fora do estereótipo

Um dos trunfos desse filme está nos efeitos especiais utilizados pelo mestre Eiji Tsuburaya, uma das principais referências do gênero tokusatsu e pai do Ultraman. Os efeitos especiais são simples, por se tratar de um chambara, mas são utilizados de uma forma que o jogo de câmera deixe o espectador impactado com o que é apresentado. 

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E os efeitos de Tsuburaya foram só complementos do que foi apresentado pela belíssima direção de arte de Matsuyama Takashi, que nos apresentou um dos filmes com cenários mais belos de toda a história do cinema chambara. Paisagens artificiais e naturais se mesclavam. Uma ajudava a outra a embelezar o filme de forma mútua. Veria uma bela direção de arte assim em Harakiri, filmado anos antes. Houve todo um estudo para escolher as locações naturais e as construções de cenários condizentes para a época que é retratada.

Uma coisa que gostei no filme e que é ausente em produções contemporâneas é a presença feminina tendo destaque. Tivemos 3 personagens femininas marcantes e importantes e com grande quantidade de presença em tela. 

Destaque para a personagem Omatsu, interpretada por Yuze Naito. A personagem exala ternura de uma maneira forte, sem deixar a feminilidade de lado. Sua personagem é uma das mais simpáticas do filme e o resultado nos é mostrado em cena. Outra personagem interessante é a pérfida Okinu, interpretada por Kawaguchi Atsuko. No filme, Okinu é uma personagem que consegue dominar homens e mulheres a seu bel-prazer, mostrando que mulheres podiam possuir certo poder sobre os outros na época. E isso não é de se jogar fora.

A Espada da Maldição
Cena de A Espada da Maldição

Efeitos especiais e direção de arte memoráveis

Mas é uma pena que o filme tenha terminado daquela maneira em aberto. Tinha potencial para mais. Mas a própria novela não teve final. Tinha que contar com a sorte para produzir um filme coerente, visto que a obra teve o final interrompido pelo falecimento do autor, mesmo que tenham durado 31 anos com mais de 40 volumes. 

Óbvio que não iam conseguir botar tudo em cena, visto que o limite da tela é pequeno, comparado aos mais de 40 volumes da novela escritos até a Segunda Guerra. Se nem as filmagens de trilogias anteriores conseguiram essa proeza, é óbvio concluir que Okamoto não iria conseguir isso no seu filme. O que é uma pena, visto que a obra de Nakazato tinha potencial para ser muito mais explorada. 

As personagens femininas em destaque

Mas o Japão estava começando a se recuperar do pós-guerra naquela época. O entretenimento era produzido a toque de caixa. Não podiam apostar em coisas sem esperar um retorno expressivo. Apesar do longa apresentar belos cenários e belas lutas coreografadas, pelo que notei aqui, a filmagem foi um erro. 

O universo de Nakazato tinha potencial para muito mais para ser explorado. Deixaram o filme com gosto de quero mais. Não é um filme de se jogar fora. Tem coisas que podem ser bem aproveitadas. Mas se não iam fazer as sequências, que não fizessem nem o primeiro filme. Faltou discernimento da Toho na época. 

Um final em aberto e o peso da produção pós-guerra

Contudo, o filme é um bom passatempo para quem gosta de filmes de samurais e que gostam de bons atores clássicos em cena (sim, estou falando de Tatsuya Nakadai e Toshiro Mifune). Assistam e tirem suas próprias conclusões.

Aliás, para saber mais sobre cinema japonês, confira aqui outras resenhas que escrevi para o Toku Blog!

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