A Lenda de Musashi e a filosofia do espadachim
O tokusatsu sempre bebeu da fonte do guerreiro errante, maduro e marcado pelas próprias escolhas. Muitos heróis desse gênero não representam o início da jornada, mas o momento em que a experiência pesa mais do que a força bruta. É justamente esse olhar que A Lenda de Musashi propõe ao retratar um Miyamoto Musashi distante da juventude impulsiva.
Assim como vários protagonistas do tokusatsu clássico, aqui o conflito não está apenas no combate, mas na reflexão sobre vida, honra e propósito.
A Lenda de Musashi: ilustração do estilo de vida na sua maturidade como espadachim
Sempre que falamos de uma obra sobre a vida de Musashi, leva-se em conta a ideia de fazer desde a sua juventude como um adolescente de 13 anos até o confronto com Kojiro Sasaki na ilha Ganryu-jima. Depois desse duelo, é muito raro encontrar uma adaptação que mostra como foi a vida desse guerreiro.
Mas o experiente roteirista Mamoru Sasaki, que trabalhou em diversas produções jidaigeki (chambaras) nos anos 1960 resolveu escrever como foi a fase madura do lendário guerreiro. Com ilustrações do premiado Goseki Kojima (para quem não conhece, foi um dos autores de Lobo Solitário), Sasaki-san nos entregou uma obra que prima pelo quase desconhecido lado do guerreiro.
O traço minimalista e o foco no humano
As ilustrações de Kojima estão mais simples do que encontramos em Lobo Solitário. Não estou dizendo que é ruim. Muito pelo contrário. Está com belos e imersivos traços. Mas simples. O artista não permitiu que os cenários da trama fizessem parte da história. O foco sempre foram os humanos que fazem parte da da mesma. Por isso, vimos muitos embates em fundo branco e com no máximo uma folha caindo empurrada pelo vento para mostrar onde os guerreiros estavam.
Talvez para quem está acostumado com uma obra do porte de Lobo Solitário ou até mesmo Vagabond (de Takehiko Inoue, que retrata a vida de Musashi desde a juventude), estranhe a ausência de cenários de forma física. A ideia é transportar as palavras do roteirista para a impressora que é a imaginação do leitor.
Sim! Kojima desenhou de um jeito para que a imaginação do leitor funcionasse, não desprezando a narrativa de Sasaki e nem a contemplação dos personagens desenhados. Muitos podem pensar ao ver as páginas desenhadas ali: “Ah, Kojima fez um trabalho preguiçoso!” Ainda mais que temos uma referência mais ampla para Musashi que é o mangá Vagabond, que é rico em detalhes, Mas isso não tira o mérito de Musashi Densetsu. Lembrando que, em 1985, Kojima-san já era sexagenário. Não se podia exigir muito do estado físico dele.
A narrativa filosófica de Sasaki Mamoru
Mas a narrativa de Sasaki Mamoru é linda, pura e etérea. Com muitas referências a obra mais famosa de Miyamoto Musashi (O Livro dos Cinco Anéis), ele nos apresentou um Musashi diferente do que nos é mostrado em outras adaptações sobre a vida do herói. O foco aqui está no Musashi dos 35 anos até os 64, quando ele adormece na morte.
Com um acurado faro para exatidão histórica, Sasaki transpôs elementos que muita gente desconhecia, como o confronto de Musashi com o jovem Amakusa Shiro Tokisada (não…. não estou falando do chefão da franquia de games Samurai Spirits).
Vida, filosofia e o peso das escolhas
Apesar de bons embates, o foco da narrativa não foram as lutas, mas a busca do Musashi pelo significado da VIDA. Sim! Com o encontro do guerreiro com 4 vertentes religiosas (Budismo, Catolicismo, Confucionismo e Xintoísmo), ele esmerou pela busca de preservar a vida.
Parece uma hipocrisia ver um guerreiro que ceifou várias vidas no decorrer da jornada falar de preservar a vida. Mas a ideia mostrada por Sasaki era de que Musashi foi um guerreiro tolo e fútil em cada combate e que se encontrava como exímio espadachim fora de combate. A ideia é apresentar um Musashi que, se puder evitar confrontos desnecessários para poupar vidas, ele o faria.
Pode ser que, para leitores afoitos por cenas de combates mortais (muito comum em shonen padrão) não seja agradável ler um mangá assim.
Um mangá que convida à reflexão
A narrativa de Sasaki Mamoru é de focar na filosofia do estilo Nittenryu (o estilo de Duas Espadas criado por Musashi). Qual o objetivo de cada combate? Será que é necessário? Vale a pena combater? Vale a pena matar? Vale a pena entregar a vida por uma crença? Sim! São perguntas de teor filosófico que cada leitor se faz a medida que as páginas avançam. E essa narrativa complementada com citações do Livro dos Cinco Anéis torna o texto lindo e profundo. Ou seja, é um mangá escrito e desenhado com o propósito de fazer o leitor refletir sobre seus atos. Nada mais que isso.
Se o leitor prefere uma trama superficial e que não necessite analisar as questões propostas pelos autores, fuja da obra. Procure uma leitura que te satisfaça com bastante luta e cenas de morte. O leitor não vai encontrar isso aqui.
Um lançamento tardio no Brasil
Achei que A Lenda de Musashi foi uma obra tardia que veio para o Brasil. Chegou no ano de 2023 (38 anos depois!). Podia ter vindo ainda na década de 00 do século XXI. Seria uma alívio interessante, visto que estamos tratando de uma obra de forte teor filosófico, no meio de tantos mangás que só prezam pela frivolidade.
Claro…. não desprezando obras de teor frívolo, pois eu até gosto de MUITAS (sim…. amo, por exemplo, Nanatsu no Taizai, assim como amo Lobo Solitário, que é o extremo oposto da obra de Nakaba Suzuki).
Claro que a vida não precisa ser séria e densa o tempo todo. Precisamos de leveza. Precisamos de coisas diferentes e de opostos. Tenho no meu acervo, obras como Karekano, AoHaRaido, Sailor Moon, Samurai X, Lobo Solitário, Full Metal Alchemist e etc. Tenho mangás para todos os gostos e todos os momentos.
Mas ficar só num estilo é cansativo. Já li muitos mangás de teor leve (como, por exemplo, o Musashi de Ishinomori, que foi escrito e desenhado para ser um mangá shonen para pré-adolescentes dos anos 1970, que possui muitas cenas de ação e principalmente cenas de humor).
Mas é bom ter uma obra mais “pensante” que nos ajude a ver que a leitura é mais do que um momento de lazer, mas uma forma de apresentar ao leitor uma chance de aprender sobre suas intenções para com a vida. E esse mangá supre essa necessidade. Por isso achei um lançamento tardio.
Considerações finais
A Lenda de Musashi é um bom mangá. Não é maçante e a leitura flui com muita facilidade. Quem gosta do gênero vai se encontrar aqui. Nada de super-poderes, isekais superficiais e um espírito frívolo. É mais um mangá para quem gosta de ver os samurais não só como ferozes combatentes, mas como filosóficos pensadores também.
Se você quiser saber mais sobre mangás, livros e obras que dialogam com o universo dos samurais e com o imaginário que influencia o tokusatsu, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



