O Caminho do Samurai: como Inazo Nitobe explicou o Bushido ao Ocidente
Antes mesmo do tokusatsu levar códigos de honra, sacrifício e dever ao público infantil por meio de heróis e guerreiros estilizados, o cinema e a literatura japonesa já lidavam de forma direta com esses valores. Muitos desses conceitos, que mais tarde apareceriam em filmes, séries e até produções henshin, têm origem no Bushido. Foi justamente para explicar essa lógica moral aos estrangeiros que Inazo Nitobe escreveu O Caminho do Samurai, preparando o Ocidente para compreender ações que, décadas depois, causariam choque em obras audiovisuais japonesas.
O choque cultural entre Japão e Ocidente
Uma vez num Festival em Cannes, o diretor Masaki Kobayashi descreveu que boa parte do grande público ficou horrorizada com a forte cena do suicídio no filme Harakiri, de 1962. Afinal, para o grande público ocidental, se auto-mutilar e se sacrificar em nome da honra era inaceitável. Mas o que o grande público não sabia é que um diplomata japonês em 1900 já tinha preparado o Ocidente para situações como essa.
Inazo Nitobe vinha de uma família de samurais e foi criado por uma das avós, que tinha descendência samurai. Mas ele foi morar no exterior. Casou com uma estadunidense, abraçou a fé católica e, mesmo assim, não desprezou a origem. Nitobe-san se tornou um diplomata respeitável que preparou o império japonês para o Ocidente e vice-versa. E o resultado está nesse livro de forte teor filosófico que tenta abrandar o Bushido, ao mesmo tempo em que tenta chocar os leitores.
Bushido explicado ao leitor estrangeiro
É um livro de leitura rápida, mas profunda. Nele, Nitobe faz um panorama para os estrangeiros sobre como foi o estilo de vida dos japoneses, principalmente a classe guerreira, sobre como o Bushido moldou o jeito de ser dos samurais.
O que percebi nessa leitura é que Nitobe mostrou certa neutralidade com relação ao Bushido. Ele não aprovou o Bushido para o japonês moderno (leia-se “japonês moderno” os viventes na era Meiji, devido a forte influência ocidental que afetou os habitantes do arquipélago na época), mas não condenou o Bushido para o japonês antigo (da época). Sabe aquele ditado “vai-se a luva e ficam os dedos e vai-se o ouro e vem o anel”? É essa a lógica do propósito do livro. Mostrar que gerações vão e outras ficam. O importante é a geração avançar, mas sem esquecer o passado.
Embora Nitobe tenha escrito com o propósito de atingir o público ocidental da era Meiji, o livro serviu para agradar o público nipônico.
As origens religiosas e filosóficas do Bushido
Ao descrever os primórdios do Bushido via oral a partir do século VII, Nitobe mostrou como isso resultou no caráter guerreiro nos séculos posteriores. Contar as origens do Bushido para os ocidentais foi uma tarefa hercúlea. Por quê? Bem…. Nitobe abraçou a fé católica.
O Bushido se mostrou com origem no xintoísmo, onde a crença em deidades naturais exerceu influência nos habitantes. Depois com a chegada do Budismo nas ilhas, houve um sincretismo entre as duas religiões, que ajudou a formar o Bushido de forma oral. Depois, com a chegada do Catolicismo nas ilhas, houve uma tentativa de abolir a Honra para dar lugar ao Amor.
Tal tentativa de abolir a Honra foi uma afronta e os japoneses tentaram massacrar o Catolicismo. Praticamente deu certo, pois o Bushido ficou imune à influência Católica durante quase 300 anos.
Modernização, tradição e permanência dos valores
Com a chegada do Comodoro Perry nas águas japonesas, o país se permitiu rever o Bushido por outro ângulo. Os japoneses precisavam se modernizar. Mas sem abandonar a essência que o consagrou.
No livro, Nitobe diz que o Japão absorveu a Tecnologia, a Indústria e as Ciências do Ocidente. A classe guerreira foi abolida, mas os valores do Bushido permaneceram. Moldaram os japoneses até o século XXI. É isso que motivou Nitobe a escrever esse compêndio para o grande público. Para que os Ocidentais conheçam como era o jeito de ser dos Japoneses do passado e para os nipônicos não deixarem que o pretérito deles desapareça.
Mesmo Nitobe abraçando a fé católica e valores ocidentais no estilo de vida, ele jamais deixou que o Bushido ensinado pela sua avó perecesse nela. Por isso que esse livro é valioso para os dias de hoje. Para que possamos avançar para o Futuro sem esquecer o Passado.
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Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



