Bando de Pardais

Bando de Pardais: quando samurais e cowboys se encontram

Toku Blog YouTube

Muito antes de encontros improváveis entre culturas diferentes se tornarem comuns em narrativas audiovisuais japonesas, inclusive em produções de tokusatsu que colocam personagens estrangeiros lado a lado com figuras tradicionais do Japão, a literatura já explorava esse choque de mundos. Bando de Pardais se insere nesse diálogo ao aproximar o imaginário do samurai e do cowboy.

Um senhor feudal abriga estrangeiros numa guerra interna, onde ele acreditava numa visão de que seria salvo por um estrangeiro.

Um romance de estreia que engana o leitor

O romance de estreia de Matsuoka Takashi nos prega várias peças. O autor soube levar para as frases, resquícios de uma violência que era tão comum num Japão do fim de período do Shogunato.

Não digo que seja um dado oficial, pois não conheço a mente e os gostos de Takashi, mas é MUITO provável que ele tenha se baseado no clássico de faroeste Sol Vermelho (Red Sun, de Terence Young, de 1971), só mudando o cenário em que ocorrem as ações. Enquanto em Sol Vermelho, um samurai é levado para o Arizona, em Bando de Pardais, ocorre o contrário, um cowboy é levado ao Japão.

Genji e a desconstrução do daimio tradicional

A história gira em torno de Genji, um frívolo e carismático daimio. Uma coisa que me chamou a atenção em Genji foi o fato de Matsuoka lhe dar uma personalidade completamente oposta do que vimos em muitos contos japoneses.

Sim! Com base em experiência própria do que vimos em diversas manifestações artísticas japonesas, a figura de daimio sempre é séria e sisuda. E essas características estão presentes em muitas figuras japonesas que vemos por aí, visto que, é de conhecimento de muitos que o povo nipônico possui características xenofóbicas (aversão a estrangeiros).

Mas aqui não. Ao contrário do que muitos autores conterrâneos de Matsuoka criam desde tempos remotos sobre Japoneses, principalmente de donos de clãs e daimios, de serem completamente preconceituosos com o que vem de fora, ele deu uma personalidade completamente oposta ao seu protagonista. Genji é bem humorado, brincalhão, não apegado as tradições japonesas e trata a todos iguais, incluindo seus superiores, serviçais e estrangeiros.

Estrangeiros, fé e profecia

A história começa com Genji abrigando missionários estadunidenses, Emily, Starck e Crommwell. A descrição que Matsuoka dá para a sua versão aos estrangeiros é de plena empatia. Segundo o que Genji nos conta, um estrangeiro salvaria a sua vida no período do ano novo japonês. Não se sabe como, quando ou onde isso ocorreria. Mas ele ficou feliz com a chegada desses estrangeiros e resolveu estabelecê-los em seu castelo em Edo em pleno fim do período shogunal.

Nessa parte da narrativa, nota-se certa simpatia do autor pelo Protetantismo. Quando usava Genji para citar a “fé cristã”, ele usava ternura e promessas nas palavras. Ao contrário de autores como Shunsaku Endo, que usava amargura ao citar uma religião não-japonesa. Sim! Takashi apresentava para os japoneses um lado positivo do estrangeirismo que os japoneses da época como um todo (para não dizer que todos os atuais) recusavam a aceitar.

Aliás, relatos de que “japoneses são um povo xenofóbicos” permeiam o mundo todo até hoje. E é bem provável que Takashi Matsuoka queria quebrar essa imagem de que “japoneses odeiam estrangeiros” na figura do carismático Genji. O leitor fica o tempo todo torcendo por ele.

Loja-Toku-Blog

Flashbacks, faroeste e construção de cenários

O livro é recheado de flashbacks. Muitos desses flashbacks ocorrem nos Estados Unidos. Vez ou outra o leitor é transportado para lá. Principalmente na região do Arizona, local de onde surgiu o nosso protagonista estrangeiro. A descrição minuciosa que Matsuoka deu para o Oeste Estadunidense mostrou que o autor assistia muito filmes de bang-bang, e as descrições mostravam que o autor era telespectador assíduo desse tipo de filmes.

O resultado são descrições precisas de cenários que o público japonês (e até mesmo estrangeiros que forem ler a obra) se sinta transportado para lá. Uma das características no texto de Matsuoka é que ele consegue descrever cenários com muita perfeição.

Ouso dizer que a perfeição dele para descrições na narrativa consegue “descrever como é a cor Verde para um cego” (usando uma figura de linguagem hipérbole para tentar passar para o leitor de quão precisas é a narrativa do autor). Ele consegue juntar e separar pedaços da história de um ponto pra outro sem perder o meio da narrativa. E isso eu conto como favor.

Samurai, cowboy e a violência como elo

Mas, para um livro de estreia, Matsuoka quis mostrar que as figuras do Samurai e do Cowboy são praticamente as mesmas, só mudando o país. Tanto da parte do Samurai como da parte do Cowboy, são guerreiros honrados, perseverantes, que buscam a vingança e redenção. Ah… sem contar que, nos dois casos, a violência se fez presente na vida desses dois tipos de guerreiros.

E o livro, mesmo com alguns relevantes momentos de humor, exagera um pouco no que chamamos de “gore”, que é uma violência exagerada com muito sangue. E vamos encontrar muitos sinais de violência para tudo quanto é tipo de pessoa. Haverá até casos em que o leitor ficará revoltado com atrocidades cometidas contra alguns personagens (teve momentos em que fiquei revoltado com o próprio Genji).

Mas a ideia do autor era mostrar que todo ser humano, por mais otimista e carismático que fosse, tem um lado sombrio. Por isso ficamos chocados com alguns atos violentos. E as descrições para essa violência toda transformaram um misto de remorso e acalento para com o texto.

Considerações finais sobre a obra

Para o seu romance de estreia, fico feliz que Matsuoka tenha sido mais bem sucedido do que mal sucedido. O autor sabe usar uma narrativa que prende. Ele nos consegue levar de um lugar para outro. Como uma frase de um dos personagens, ele consegue transformar “violência em poesia”.

É um livro que leria de novo? Não… não leria. Não por causa da violência (que Shogun, de James Clavell tinha de sobra, mas esse eu leria de novo), mas por causa do aspecto profético que alguns personagens emanavam. Esse aspecto me tirou a vontade de ler o livro de novo num futuro.

Não estou dizendo que o livro é ruim. Muito pelo contrário. É um livro excelente. Mas a ideia do sobrenatural não deveria estar ali. Dava para fazer uma narrativa mais do que perfeita se excluísse o elemento sobrenatural. Mas isso não torna o livro ruim.

Para saber mais sobre romances históricos japoneses, choques culturais e obras que dialogam com o imaginário da cultura pop do Japão, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.

quadrinhos de tokusatsu

Quer receber conteúdos de tokusatsu no seu e-mail?

Então, assine a nossa newsletter!

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.