Audição (Audition): thriller psicológico de Ryu Murakami sobre desejo, poder e perversão
Audição é uma obra que dialoga com o universo da cultura pop japonesa (que inclui as produções de tokusatsu) ao explorar, de forma extrema e psicológica, as tensões sociais e emocionais do Japão no final do século XX. Um renomado produtor se envolve com uma misteriosa mulher mais jovem cegamente.
Primeiras impressões e temas centrais
Admito que esse foi o primeiro livro de Murakami Ryu que eu li. O livro flerta para um thriller erótico que trabalha em temas pesados, como a objetificação da mulher em relatos fortes de misoginia, Mas também mostra o número crescente de misandria na emblemática sociedade japonesa no final do século XX.
A audição e o início do jogo psicológico
A trama gira em torno do viúvo Shigeharu Aoyama, um jovem viúvo com um filho de 15 anos que nunca pensou em casar de novo. Até que, por insistência de seu filho e de um amigo de anos, ele resolve fazer uma audição para achar a mulher que pode substituir a sua finada esposa.
Misoginia como ponto de partida
A primeira parte do livro é o prelúdio para a grande desgraça. Vale salientar a importância de denunciar a misoginia, visto que, tanto Aoyama como Yoshioka trataram as mulheres na audição como meros pedaços de carne para satisfazer a luxúria pessoal.
Embora as intenções de Aoyama de procurar uma nova esposa sejam nobres, o método usado por ele e seu amigo foram baixos, expondo assim, o discurso machista que mulheres só servem para servir ao homem e que podem ser descartadas a qualquer momento.
E foi isso que foi explorado na primeira parte do livro. Até que Aoyama se vê envolvido pela beleza e pela conduta de Asami Yamazaki, a moça escolhida pela audição.
Sedução, silêncio e alerta ignorado
Depois dos primeiros encontros, a narrativa começa a mostrar sinais de mudanças de rumo. O esperto produtor se vê preso numa rede de sedução com a jovem Yamazaki. Mas ele não contava que estivesse emocionalmente envolvido por ela.
Aí, todos ao seu redor o alertam para não ir com muita sede ao pote, visto que ela não revela coisas do seu passado, seu presente e seu futuro para ninguém. Tudo que ela fala é vago e mesmo assim, ele prefere arriscar.
A virada psicológica e o horror
Agora, na segunda metade para a reta final, o thriller erótico muda de forma e passa a usar uma linguagem mais psicológica e com mais densidade. Yamazaki mostra a sua natureza. O autor consegue trabalhar com a intensidade e com o lado macabro. Aqui, já nessa altura da leitura, a denúncia da misoginia na sociedade japonesa no final do século XX por parte do autor dá lugar à denuncia da crescente onda de misandria que assola aquele lado do Japão.
Em suma: o autor conseguiu transpor para as páginas, o terror dos dois lados (misoginia e misandria) de uma forma com tanta intensidade que o leitor se sente preso. Na primeira parte da leitura, quando a misoginia estava presente, o leitor torce para Yamazaki, que ela supere seus traumas. Mas quando a misandria aparece de forma forte e macabra, o leitor inverte a sua torcida.
O mal como traço humano
O autor trabalhou nas suas páginas sobre o lado perverso da mente das pessoas. Ele não falou do lado perverso da mente de um homem ou de uma mulher. Mas de “pessoas”. O lado perverso pode aflorar nas pessoas, não importa o gênero. Tanto o Homem como a Mulher possuem um lado maligno que se despertam de acordo com seus interesses.
E é nesse jogo de ideias psicológicas que Murakami trabalhou no enredo nessa história cáustica, onde não se tem mocinhos ou vilões. Aliás, o protagonismo e o antagonismo dos personagens são volúveis. E isso torna a leitura intrigante.
Um final cruel e sem vencedores
Audição termina de uma forma macabra, onde não se tem um lado vencedor e nem perdedor. Aqui, as pessoas são derrotadas pelo seu psicológico de forma cruel. A violência e o erotismo são descritos com muita sobriedade. Mostrar um lado obscuro do Japão do final do século XX exige muito tato. Mas o autor conseguiu isso.
As traduções de Lica Hashimoto e Juliana Kobayashi mostram que elas pegaram a essência do texto de Murakami, deixando o livro mais dinâmico e envolvente. A tradução ficou despudorada, o que pode deixar o leitor sensível com linguagem chula incomodado. Mas mesmo assim, pode ser uma ótima pedida, pois, a medida que começa a ler, a leitura fica compulsiva.
Eu terminei de ler o livro num intervalo de 10 horas. 188 páginas que devorei, de tão compulsiva que é. O leitor acaba envolvido no jogo de palavras e ações dos personagens. E isso torna o livro especial.
Para saber mais sobre thrillers psicológicos japoneses como Audição, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



