Super Sentai chega ao fim após meio século de história?
A franquia Super Sentai deixará de ser transmitida na TV Asahi após Number One Sentai Gozyuger, segundo reportou a imprensa japonesa em 30 de outubro, com base em apuração com fontes ligadas à produção. A TV Asahi não comenta planos futuros de programação, mas a reportagem do Mainichi Shimbun registrou que o ciclo iniciado em 1975 com Himitsu Sentai Gorenger chega ao fim na emissora.
Muito embora, até o fechamento desta notícia, Toei, Bandai e TV Asahi ainda não tenham feito o comunicado formal sobre o assunto, ele vem gerando muitos debates entre os fãs de tokusatsu, sobretudo considerando sua possível causa: baixo retorno financeiro.
Mas, será isso mesmo? Como estão as vendas de Super Sentai no Japão? E a audiência? Isso poderá determinar mesmo o fim de uma franquia de heróis coloridos e robôs gigantes? Continue a leitura para saber.
Motivos citados para o encerramento do Super Sentai
O Yahoo News Japan apontou que a decisão está relacionada ao equilíbrio financeiro entre o custo de produção e os ganhos obtidos com eventos, produtos licenciados e adaptações cinematográficas. Apesar da popularidade histórica, os retornos não estariam mais correspondendo aos valores necessários para manter o programa.
Mas, como estão as vendas de Super Sentai?
Os informes da Bandai Namco — maior licenciadora de brinquedos e produtos da franquia — oferecem um parâmetro objetivo, conforme mostra a tabela abaixo, que teve como base o relatório de 2025.
| Propriedade intelectual (franquias e marcas) | Ano fiscal de 2025 |
|---|---|
| Dragon Ball | 190,6 bilhões de ienes |
| Mobile Suit Gundam | 153,5 bilhões de ienes |
| One Piece | 139,5 bilhões de ienes |
| Kamen Rider | 30,7 bilhões de ienes |
| Naruto | 26,9 bilhões de ienes |
| Ultraman | 14 bilhões de ienes |
| Pretty Cure | 7,9 bilhões de ienes |
| Super Sentai | 6,4 bilhões de ienes |
Considerando a taxa de câmbio de hoje em que 1 iene equivale a aproximadamente R$ 0,03, as marcas de tokusatsu geraram em vendas: R$ 1,081 bilhão de Kamen Rider, R$ 493,1 milhões de Ultraman, e R$ 225,4 milhões de Super Sentai, sendo este o menos rentável dos três.
E como está a audiência do Super Sentai?
A trajetória de audiência de Super Sentai mostra uma mudança clara de patamar ao longo das décadas, segundo apontamento do site Tokusatsu Shichouritsu Hokan.
Em 1975, Gorenger registrou média de 16,1%. Na metade dos anos 1980, Changeman marcou 11,1%. Nas séries mais recentes, as médias giram em patamares mais baixos — por exemplo, Kyuranger (2017) com 3,0%, Lupinranger vs Patranger (2018) com 3,0% e Ryusoulger (2019) com 2,6%.
| Década | Série (exemplo) | Média (%) |
|---|---|---|
| 1970s | Gorenger (1975) | 16,1 |
| 1980s | Changeman (1985) | 11,1 |
| 2010s | Kyuranger (2017) | 3,0 |
| 2010s | Lupinranger vs Patranger (2018) | 3,0 |
| 2010s | Ryusoulger (2019) | 2,6 |
Importante: comparar séries antigas e atuais requer cuidado metodológico, pois os números clássicos são de audiência domiciliar. Desde 2022, a Video Research (empresa japonesa de pesquisa de mercado especializada em medição de audiência de televisão, rádio e mídia em geral) passou a destacar rankings por audiência individual.
O contraste histórico reflete a fragmentação de audiência na TV aberta japonesa e a migração do público infantil/juvenil para plataformas digitais, games e sob demanda, tal como vemos a seguir.
Super Sentai se tornou menos popular?
Sim. Por mais que esta resposta possa machucar o coração dos fãs, a queda de audiência televisiva e o desempenho proporcionalmente menor em receita frente a outras franquias de tokusatsu indicam uma redução consistente no alcance tradicional da marca ao longo dos últimos anos.
Além do mais, a trajetória do Super Sentai durante meio século evidencia um fenômeno estrutural no entretenimento japonês: o deslocamento da audiência infantil da TV aberta para plataformas digitais.
Pesquisas do Mobile Society Research Institute da NTT Docomo — como a “Mobile Society White Paper 2025” — mostram que há mudanças significativas na posse de dispositivos móveis e no uso de redes sociais por alunos do ensino fundamental e médio, com capítulos dedicados ao comportamento digital de crianças e adolescentes.
Paralelamente, os dados indicam que serviços sob demanda tornaram-se destinos prioritários do tempo de tela juvenil no Japão: por exemplo, uma pesquisa do Statista revelou que a taxa de uso de serviços de vídeo on-demand para adolescentes estava entre os mais elevados nas faixas etárias jovens.
Além disso, o uso de YouTube alcança mais de 60 % entre adolescentes e pessoas na faixa dos 20 anos. Esse cenário sugere um deslocamento de atenção da TV linear para o ambiente sob demanda e móvel, pressionando o bloco matinal da TV Asahi historicamente sustentado por Super Sentai, Kamen Rider e Pretty Cure.
| Aspecto | Era da TV aberta | Era digital |
|---|---|---|
| Meio principal | Programação linear matinal | Vídeo sob demanda / plataformas online |
| Descoberta de conteúdo | Grade televisiva | Algoritmos / buscas / recomendações |
| Competição por atenção | Conteúdo infantil local | Conteúdo global + jogos + apps |
Portanto, embora Super Sentai mantenha valor histórico e cultural, os indicadores apresentados neste artigo refletem os efeitos dessa transformação midiática mais ampla no Japão, em que a audiência juvenil se distribui por dispositivos pessoais e plataformas digitais, reduzindo o alcance linear tradicional. Isso pode evidenciar queda em vendas de produtos relacionados, o que justificaria uma decisão para o fim da franquia por esse motivo.
Mas, produzir Super Sentai está tão “caro” assim?
Em comparação aos anos anteriores, sim, está mais caro.
Os relatórios financeiros mais recentes da Toei mostram uma estrutura operacional pressionada. No ano fiscal encerrado em março de 2025, a companhia registrou aumento de 6,9% nas despesas gerais e administrativas — puxado por reforço de pessoal, elevação salarial e aceleração de depreciação de instalações.
Esse movimento está alinhado à necessidade de sustentar infraestrutura criativa, modernização tecnológica e competitividade em um mercado audiovisual dominado por streaming, multiplataformas e expectativas técnicas elevadas.
Embora o relatório não detalhe isoladamente o custo da produção semanal de tokusatsu, Super Sentai é um formato intensivo em efeitos práticos e digitais, locações físicas, elenco grande, dublês, figurinos, robôs, coreografia e pós-produção recorrente. Em estruturas desse tipo, aumentos corporativos tendem a bater diretamente no orçamento das séries.
E há outro sinal importante. No 1º trimestre do ano fiscal de 2025, a Toei registrou que, sem custos de grandes títulos de live-action doméstico no período, as despesas caíram e o lucro operacional desse segmento subiu ano a ano — o que deixa claro o peso orçamentário quando essas produções estão ativas.
A tendência também aparece fora da Toei. Em apresentação a investidores, a holding de Ultraman reportou “aumento de despesas de produção para determinados projetos de grande porte”, reforçando o movimento de encarecimento no ecossistema de tokusatsu.
Ou seja: o custo de manter um ciclo industrial semanal de heróis coloridos e robôs gigantes cresceu significativamente. Em um cenário em que Super Sentai gera retorno proporcional menor que outras franquias, o equilíbrio entre investimento e receita torna-se parte central do debate sobre seu futuro. E por falar nisso…
Qual será o futuro do Super Sentai?
Pelo quadro atual, o mais provável não é um “fim”, mas uma mudança de formato e posicionamento do que se conhece como Super Sentai.
A apuração repercutida pelos veículos japoneses indica o encerramento da exibição na TV Asahi com Gozyuger, abrindo espaço para uma reformulação ampla — inclusive com possível mudança de nome e reposicionamento da marca, segundo leitura e compilação do Mega Power Brasil.
A hipótese de rebrand também aparece como caminho de mercado discutido por analistas e pelo fandom como no RangerBoard, com foco em reduzir barreiras de entrada e buscar novos públicos.
Em termos editoriais, um ciclo de episódios mais curto — a exemplo do que ocorreu com Ultraman atualmente — é citado como ajuste plausível para atender hábitos atuais de consumo e ampliar o alcance internacional, inclusive via streaming.
A leitura de Katsuya Harada vai na mesma direção: Super Sentai é um patrimônio cultural com histórico de adaptação; “sair da TV” pode significar migrar de janela, não desaparecer. Ele ressalta que hiatos longos tendem a ser contraproducentes no ecossistema digital, defendendo presença contínua em novas plataformas e produtos para manter relevância e fluxo comercial.
Na mesma linha, Giuzão Chagas, do Tokucast, aponta que a discussão mais realista é de oxigenação estratégica — pausa curta, rebranding e reentrada em outros canais — e não de encerramento definitivo. A marca segue forte, lucrativa e internacionalizável, e a decisão pode ser um passo para reposicionar a franquia no mercado global.
Super Sentai vai acabar?
Não exatamente — ao menos, não no sentido definitivo. O ciclo que se encerra é o da exibição semanal na TV Asahi, um formato que acompanhou gerações desde 1975.
Mas, os sinais apontam mais para transição do que para encerramento: queda de audiência na TV aberta, mudança no comportamento do público infantil, e um mercado audiovisual que hoje prioriza conteúdo sob demanda, temporadas mais curtas e alcance global. Ao lado disso, a marca Super Sentai segue com valor comercial, nostalgia forte, produtos licenciados e presença cultural consolidada — fatores que pesam contra um “fim” literal.
O cenário mais provável é uma reformulação estratégica, com novo posicionamento, possível mudança de nome e distribuição multiplataforma. Em outras palavras: a era clássica termina, mas o conceito de heróis coloridos unidos contra o mal continua — só que agora, pronto para um novo formato.
Até porque sabia que a franquia já esteve à beira do encerramento e se reinventou? Continue conosco e confira quando o Super Sentai quase acabou nos anos 90.

Fundador do Toku Blog, CEO da Agência Henshin e consultor de marketing digital, fascinado por marketing de conteúdo e admirador da cultura japonesa.


