Zatoichi, o espadachim cego: história, contexto e crítica social
Personagens errantes, guerreiros solitários e justiceiros à margem do sistema sempre fizeram parte do imaginário do tokusatsu, especialmente nas séries ambientadas em versões idealizadas do Japão feudal ou em narrativas que misturam honra, exclusão social e violência estrutural. Nesse contexto, Zatoichi se encaixa perfeitamente como um arquétipo que dialoga com heróis cegos, espadachins trágicos e figuras marginalizadas que usam a espada como extensão de sua ética pessoal.
Este livreto de Minami Keizo ajuda a compreender por que Zatoichi atravessou décadas no cinema japonês e segue relevante até hoje.
Uma interpretação literária de Zatoichi, o espadachim cego
Zatoichi é um personagem criado por Shimozawa Kan. O espadachim cego foi apresentado também no cinema interpretado por Shintaro Katsu ainda na década de 1960 e 1970, com um total de 26 filmes (entre eles, um crossover entre Yojimbo e ele). Foi algo popular na época. Na década de 2000 teve um remake, onde o nosso protagonista foi interpretado por Kitano Takeshi.
A franquia nos apresenta um massagista e apostador cego com uma ótima perícia na espada com um sexto sentido apurado. Ele enfrenta ronins e yakuza com ótima habilidade.
A proposta narrativa do livreto
Minami Keizo fez aqui um apanhado de aventuras de Zatoichi inspiradas nos 26 filmes, misturadas com ineditismo e lições sobre a época. Os primeiros capítulos são mais densos devido a quantidade de texto ser grande e é focado na narrativa. Possui poucas gravuras, comparadas ao livreto do Musashi. Mas o texto pode ser grande, mas a leitura é tão dinâmica que o leitor consegue lê-lo em 90 minutos (como foi o meu caso).
Ao contrário do primeiro volume, onde foi contado um pouco da vida de Musashi, nesse nos foram contadas histórias de um personagem que não existiu. O autor tentou passar para a narrativa, eventos fictícios que se misturam com o real.
Violência social, ronins e corrupção
Um desses exemplos está no esquema de corrupção de arrecadação imprópria de impostos, que fez com que muitas famílias japonesas de lavradores vendessem suas filhas para os locais de baixo meretrício. Também vemos aqui uma descrição vívida causada pelos horrores dos ronins (samurais desempregados e sem mestres), que causavam caos na população. Para conseguirem o sustento, eles se tornavam bandoleiros violentos e atacavam aldeias simples, saqueando e matando.
Onde vimos isso? Ah…. acertou quem falou no clássico “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa. Aqui nesse livreto, o “plot” principal se baseia claramente nesse filme. Mas tendo nosso espadachim cego como protagonista.
Etiqueta japonesa e contexto histórico
Tem um capítulo dedicado a regras de etiquetas japonesas, sobre o que deve fazer e o que não se deve numa refeição na casa de algum anfitrião. Uma pequena crônica envolvendo o protagonista foi usada para ilustrar isso e, depois da história, foi nos apresentados sobre o que fazer e o que não fazer. Muitos podem questionar a etiqueta japonesa, do mesmo modo que eles questionam as nossas. Mas é normal. São outro povo e outra cultura. Algumas dessas normas de etiquetas me foram inéditas. Mas a maioria eu conhecia.
Teve um capítulo dedicado também ao período em que se passam as aventuras de Zatoichi. Um Japão turbulento, pronto para eclodir a Restauração Meiji. E isso é bom, pois é uma forma de mostrar que nem tudo no Japão foi, é e será um “mar de rosas”, como muitos brasileiros pensam. O Japão tem uma cultura rica e linda. Mas não é só de cultura que se viveu o país. Atos de violência, corrupção e imoralidade eram comuns na época. Óbvio que hoje deu uma melhorada, mas ainda é um país difícil de viver.
A denúncia da violência contra a mulher
Um ponto interessante também foi a denúncia descarada de maus tratos às figuras femininas. O Japão, em muitos casos, é conhecido como um país machista até os dias de hoje. O descaso com a figura da mulher na época reforça a ideia de que o país precisa melhorar e muito no trato com o feminino e delicado. As mulheres eram constantemente atacadas de todas as formas possíveis para satisfazer a luxúria pessoal de homens sem escrúpulos.
Embora tivemos algumas perdas femininas nas crônicas, saber que a maioria das mulheres relatadas no livreto tiveram um final feliz mostra uma tendência de que a mulher pode ser valorizada para repararem o erro do passado.
Glossário e considerações finais
O livreto possui um glossário no final com os mesmos vocábulos encontrados no livro de Musashi. Ou seja, eu os reli cuidadosamente. Mas conhecimento nunca é demais. É um livreto fácil de ler e se o leitor se permitir focar nele, termina de lê-lo rapidamente. É pequeno, com 142 páginas. Mas não deixa de ser profundo. O leitor pode absorver muita coisa nesse livreto e se aprofundar cada vez mais na história do Japão.
Se você curte esse tipo de leitura que cruza história japonesa, cinema, cultura pop e reflexões mais densas, vale a pena conferir outras resenhas que publiquei aqui no Toku Blog. Tem muito material sobre samurais, tokusatsu, mangás e cinema japonês que dialoga diretamente com esse universo.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



