Silêncio (Chinmoku): fé, perseguição e o silêncio divino no Japão do século XVII
Silêncio é um romance histórico ligado ao contexto da cultura pop japonesa (que também inclui mangás, animes e tokusatsu) que retrata a perseguição e a opressão aos católicos no Japão do século XVII, além do questionamento profundo sobre fé, dor e abdicação.
A história acompanha um período marcado pela repressão religiosa e pela tentativa de erradicação do catolicismo em terras japonesas.
Um romance histórico sobre fé e repressão
Li num espaço de 12 horas aproximadamente, esse livro de romance histórico sobre a fé. A ideia do autor é promover a ideia de “perseguição aos perseguidores”. A fama da Igreja Católica de oprimir outros povos que não abraçassem a sua fé e que não se curvasse diante de suas vontades como ocorreu na Europa momentos antes da Reforma Protestante é longínqua, fazendo com que devotos contemporâneos do século XXI tivessem ojeriza pelo passado da mesma.
Sim! Durante o período pré-reforma, a Igreja perseguia e matava quem fosse contra o viés das tradições propostas pela mesma, eliminando em torturas cruéis até devotos que possuíam uma Bíblia em casa. E como se esquecer das famosas Cruzadas, onde templários viajam para outras terras obrigando-os a aceitar a sua fé? Ou até mesmo na famosa “Santa” Inquisição, onde homens e, principalmente, mulheres eram queimadas vivas por apresentarem comportamento científico contrário ao que a Igreja pregava?
Pois, é… essa foi a fama que a Igreja Católica fez para si no decorrer dos séculos que sucederam esses eventos.
Quando o opressor se torna o oprimido
Mas e se a Igreja deixasse de ser “opressora” para se tornar a “oprimida”? Bem! Essa foi a ideia que o saudoso autor Shusaku Endo (1923-1996) fez ao escrever esse romance histórico sobre um período da história do Japão considerado “período de trevas” para os parcos católicos presentes no arquipélago japonês. Outra ideia é fazer os católicos japoneses nativos pensarem se vale a pena viver por uma fé sem saber se vai prosperar.
A ideia de Endo em usar um antagonista risonho, bonachão e até mesmo simplório para as ideias propostas soa interessante, indo a choque contra um impassível Cristo na figura idealizada por Sebastião Rodrigues (nosso protagonista). O padre chegou ao Japão com a ideia de fazer o Japão se render a fé católica junto com seu parceiro Garpe. Mas encontraram obstáculos.
Durante a leitura, o padre questiona o tempo todo sobre o “silêncio” da figura de Cristo diante das provações que ele e o povo católico tiveram no Japão do século XVII.
Catolicismo visto como heresia no Japão feudal
Aqui vemos que o Japão Budista e Xintoísta do século XVII considerava a religião católica como uma forma demoníaca do universo das religiões tradicionais japonesas. E essa presença do Catolicismo no Japão Feudal como se fosse algo demoníaco do ponto de vista budista é retratada em muitas obras (a mais famosa que lembro foi a franquia de games, onde o primeiro chefe, Amakusa Shiro Tokusada, foi baseado num católico de mesmo nome que criou um levante contra o shogun budista em Nagasaki aos católicos naquela região.
Em Samurai Spirits, a religião de Amakusa é considerada “satânica” aos olhos japoneses). Então, não se espantem com os argumentos de Inoue (antagonista do romance) ao declarar o Catolicismo como algo vão que não prosperaria no Japão.
Claro que a visão dos japoneses dos tempos contemporâneos para o catolicismo é diferente dos japoneses do século XVII. Os japoneses de hoje ficam deslumbrados com a suntuosidade que esse credo se mostra para os asiáticos que observam as tendências do Ocidente.
Vimos isso em muitas obras, onde costumes católicos (como o casamento católico) são retratados em muitas obras da cultura pop (a mais famosa que eu lembre é o anime Weeding Peach, onde as meninas usam o casamento católico em vestidos de noivas para simbolizar a luta pela paz e pelo amor). Mas os poderosos daimyos do Japão Feudal não se permitiram ficar deslumbrados com o desenvolvimento da fé católica no país.
Violência, punição e o silêncio do divino
E isso foi retratado de forma cruel e até incômoda para quem professar essa fé. Muitos relatos descritos no livro, de fato, podem ter acontecido, como a punição da água fervente, de amarrarem os camponeses em estacas, do poço ou decapitações. E detalhe: as punições eram cometidas com sorrisos nos rostos de Inoue. O autor mostrou que o mundo desde tempos remotos permite o Mal vencer diante do “Bem”. Mas, qual a visão do “Bem” que o autor quis mostrar?
O que é o bem?
Essa visão do “Bem” é retratada nas longas conversas entre Ferreira e Rodrigues. Ambos foram obrigados a agirem contra suas crenças de forma persuasiva para defenderem a fé. Parece um paradoxo, mas não é. Quem ler o livro vai entender o porquê de eles questionarem o “Bem” e se é possível o Mal vencer o “Bem”.
O que é o “Bem”? A resposta é encontrada por Rodrigues em determinado momento da obra, num clímax derradeiro e sedutor, que prende o leitor de uma forma que ele se vê envolvido com o período em que a narrativa é passada.
O autor faz o leitor questionar o tempo todo sobre o “silêncio” do Divino diante das provações e suplícios. E isso torna a leitura prazerosa e rica em detalhes. Não é a toa que Martin Scorcese escolheu esse romance para fazer o filme de 2017, onde foi estrelado por Andrew Garfield (um dos Homens-aranha).
A história é instigante. Não chega a ser uma obra “Cult”, mas faz com que o leitor (e telespectador) reflita sobre os caminhos que levam a humanidade a agir sem perder a fé e também a descontração.
Uma obra atemporal
Silêncio é uma obra atemporal. Embora retrate o passado, serve para descrever o futuro. Resta saber como o leitor vai reagir diante tamanha narrativa que mexe com o âmago da fé. Com certeza esse livro pode trazer vários momentos de reflexão se souber utilizá-los a seu favor. É uma leitura dinâmica e rica.
Para saber mais sobre romances históricos japoneses e obras que exploram fé e sofrimento, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



