Hiroshi Hirata e o Japão Edo sem glamour em O Preço da Desonra
Muito do tokusatsu que dialoga com o Japão feudal bebe diretamente da mesma fonte que alimenta o mangá jidageki mais cru e adulto. Personagens solitários, códigos de honra distorcidos, violência sem glamour e a sensação constante de um país em transição aparecem tanto em séries quanto em obras impressas. O Preço da Desonra se insere exatamente nesse terreno: um retrato seco e incômodo do início do período Edo, onde a paz oficial não significava justiça nem redenção.
O Preço da Desonra: compilado de histórias sobre um caçador de promissórias no início do período Edo
Hiroshi Hirata começou essa saga em 1971. Começou como mangaká de forma tardia para os padrões da época (aos 21 anos). O autor viveu sua carreira dedicando e desenhando os dramas jidageiki (histórias seriadas que retratam a época do Japão dos Samurais).
O artista foi bastante cuidadoso ao retratar uma época em que paz e guerra andavam de mãos dadas. Afinal, o universo de Kubidai Hanshiro (o “hikiukenin” do título original) se passa no início do período Edo. Não se tinham mais guerras civis, mas a violência entre samurais desempregados eram constante. E ele desenhou e escreveu as aventuras de Hanshiro Kubidai de uma forma meticulosa. O resultado foi essa obra-prima que temos em mãos.
Estrutura fragmentada e ausência de origem
Ao contrário de muitos mangás, Kubidai Hikiukenin não tem começo e nem fim. Mas foi encerrada. O primeiro volume foi desenhado nos anos 70 do século XX com 6 capítulos sem nenhuma conexão aparente e sem nenhuma repetição de personagens entre si (com exceção de nosso imponente protagonista).
Quando falo que não tem começo é por causa disso. Não se sabe nada sobre o passado do Hanshiro. Não nos é contado. Ele simplesmente aparece, executa a missão e some, deixando rastro de morte por onde quer que passe. Ele simplesmente aparecia e desaparecia. Não se sabe como. Mas estamos falando de um mangá para o público adulto japonês. Não precisou de algum começo propriamente dito.
Eu jurava que, a medida que lia as páginas, teria algo relacionado ao passado do protagonista. Mas eu ficava tão encantado com o traço preciso de Hirata e com a história que deixei passar batido. Foram 6 volumes com histórias fechadas, sem conexão. Não permitiu margem para fatos relacionados ao passado do protagonista. A origem não importou aqui. Não sei se levo isso em conta ou não. Mas ficou com gostinho de quero mais.
O retorno em 1997 e a maturidade do autor
Mas esse “gostinho de quero mais” viria 24 anos depois, em 1997, quando o autor desenhou e escreveu outro compilado de histórias para a revista Afternoon. Aqui o autor ousou ao usar partes digitais nos primeiros capítulos. Mas depois abandonou o uso e começou a recorrer ao tradicional papel, pena e tinta.
Mesmo com as inovações, o autor fez uso do mesmo método que na década de 70: histórias sem conexão, o uso de não repetição de personagens coadjuvantes de uma história pra outra e não revelar detalhes do passado do protagonista. Eu senti o autor mais preocupado em viver o presente do protagonista. Não fez questão de apresentar o passado e futuro dele.
Mas fora essa gague de roteiro, me alegra ver que são histórias com certa coesão e que o autor caprichou para que fossem curtas. O autor apelou para a chantagem emocional do leitor e fez com que nos simpatizássemos com muitos personagens, mesmo os aparentemente sem importância nas histórias.
Estilo visual e público-alvo
Hirata tem um traço beirando ao realismo (não tanto detalhista como de artistas contemporâneos, como Takehiko Inoue e seu aclamado Vagabond). Não é um mangá para um público infanto-juvenil sedento por lutas sem objetivos como em shonen tradicionais. Estamos falando de um seinen para um público acima dos 30 anos.
Não tem espaço para saltos mortais, poderes elaborados, movimentos anormais com superpoderes e efeitos pirotécnicos. É um traço cru e limpo, assim como o público mais velho exige. Se mesmo depois de adulto, tu gostas de um mangá shonen com torneios intermináveis sem objetivo coerente, esse mangá não é para ti.
Aqui você vai ver de tudo. Violência, sangue derramado de crianças, idosos e animais, nudez feminina (inclusive em nu frontal numa cena bem forte). É um mangá desenhado para quem tem estômago forte. Pode ser que o leitor mais sensível fique chocado com algumas cenas desenhadas (principalmente as envolvendo cenas escatológicas que se mostraram comuns na obra).
Ausência de humor e tom dramático
Senti um pouco da ausência de cenas de humor. Mesmo que o mangá tenha sido para um público mais velho, o autor não permitiu um humor, nem mesmo de forma sutil. O foco aqui foi o drama e a violência exacerbada.
Ao contrário de seus contemporâneos, como o Kojima de Lobo Solitário, que permitiu alguns momentos de humor em sua obra, Hirata não permitiu isso aqui, focando só nos dramas. Os roteiros das histórias são bons. Mas não tem conclusão. As histórias começam sem eira e nem beira.
Edição, qualidades e ressalvas
No segundo volume, encontramos páginas coloridas. Deu um charme a mais para a obra. Mesmo com essas “falhas”, não tira o mérito de ser uma obra honrosa que a Pipoca e Nanquim nos trouxe. É uma obra que vale a pena ter em sua biblioteca pelos desenhos detalhistas e roteiros curtos.
A não repetição de personagens nas histórias mostrou um lado do autor em criar diversos tipos de personagens. Alguns personagens femininos não me mostraram diferenças em suas expressões e no traço do desenho, chegando a me confundir sobre quem é quem. Mas não deixa de ser uma boa obra.
Se o leitor tiver um estoque de músicas tradicionais japonesas que foram temas de filmes, novelas ou games de samurais, a imersão na história será maior. O leitor é automaticamente “transportado” para o ambiente.
Considerações finais
O Preço da Desonra funciona também como uma crítica direta ao governo Tokugawa, responsável por encerrar as guerras civis japonesas, mas que, em contrapartida, criou uma profunda desordem social. Apesar do período de suposta paz, muitos samurais foram prejudicados e perderam sua função dentro da hierarquia.
Nas histórias apresentadas, vemos guerreiros que abdicaram da posição de samurai para sobreviver em classes sociais inferiores, expondo uma crítica dura à segregação social japonesa, bastante pertinente até para os dias atuais, mesmo sendo uma obra escrita há mais de cinquenta anos, ambientada em uma época marcada pelo rígido sistema de castas.
Hirata usa seus personagens para questionar o orgulho cego de morrer pela honra, valorizando, em contrapartida, a honestidade, a família e a continuidade da vida. Em diversos momentos, o protagonista reforça que viver pela família e pela retidão é mais essencial do que morrer por uma honra abstrata. A honra é importante, mas não supera o valor do afeto e da responsabilidade com quem se ama.
As histórias mostram desafios cotidianos e expõem a rigidez emocional dos japoneses da época, funcionando também como uma crítica à noção moderna de honra extrema. Muitos ainda se sentem compelidos a se anular quando falham, mas o autor deixa claro que errar faz parte da condição humana. Até o protagonista falha, mas nunca considera dar fim à própria existência. A mensagem é direta: o futuro se constrói com as próprias mãos. Se nos entregamos, o destino nos vence.
O Preço da Desonra não é um mangá ruim, mas certamente é uma obra atípica para leitores acostumados a shonen e isekai convencionais. Trata-se de um mangá adulto, focado em personagens humanos, falhos e contraditórios.
Quem busca uma narrativa clássica, com começo, meio e fim bem definidos, provavelmente não irá apreciá-lo em profundidade. Mas leitores mais abertos, dispostos a aceitar estruturas narrativas menos convencionais, encontrarão aqui uma obra densa, incômoda e cheia de reflexões que preparam o terreno para leituras ainda mais desafiadoras.
Se você curte esse lado mais cru, adulto e filosófico do Japão retratado em mangás, livros e cinema, te convido a conferir outras resenhas que escrevi no Toku Blog, onde sigo explorando essas conexões entre cultura, história e imaginário japonês
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



