Noites de Hokkaido

Contos e tradições do povo Ainu em Noites de Hokkaido

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Muito do imaginário presente no tokusatsu nasce de camadas culturais profundas, anteriores ao próprio Japão moderno. Criaturas sobrenaturais, espíritos da natureza, mundos paralelos e forças invisíveis não surgiram do nada: vêm de tradições ancestrais, muitas delas ignoradas pela historiografia dominante. Noites de Hokkaido resgata justamente essas raízes, apresentando contos do povo Ainu, habitantes originários do arquipélago. Entender essas narrativas ajuda a compreender de onde vêm conceitos tão recorrentes em séries japonesas, inclusive no tokusatsu.

Noites de Hokkaido: reunião de contos e tradições do povo Ainu

Ah… Hokkaido. A beleza selvagem da ilha mais setentrional do Japão esconde mistérios que reluzem nesses contos ajuntados por Mashiho Chiri e traduzidos por Felipe Medeiros. Chiri foi um antropólogo Ainu que se permitiu absorver um pouco da cultura japonesa para resgatar a memória de seus ancestrais.

Ele lançou essa reunião de contos em revistas japonesas de Hokkaido. Felipe Medeiros conseguiu fazer o compilado desses contos, traduzi-los e lançar para que o povo brasileiro amante da cultura japonesa possa conhecer um pouco dos habitantes do Japão antes dos japoneses chegarem ao arquipélago.

O povo Ainu e sua história no Japão

Os Ainus foram os primeiros habitantes do Japão. Diferentes dos japoneses, eles são caucasianos e considerados a raça mais peluda entre os humanos do mundo. Era costume das mulheres Ainus tatuarem barbichas ao redor da boca com tinta de hena para simular os pelos do homem. Em alguns casos, as mulheres iam para a fronte de combate com os homens para combaterem outras tribos.

Muitas guerras foram travadas entre Ainus e Japoneses. Os Ainus foram expulsos para as terras do norte do país e muitas vezes são marginalizados pela sociedade japonesa. Na primeira metade do século XX, os Ainus tiveram sua cultura quase extinta devido a supremacia japonesa. Mas a partir da década de 1980, houve tentativas de grupos que queriam preservar essa cultura e na década de 2000, os Ainus foram considerados indígenas do Japão.

Estrutura do livro e crenças espirituais

Nesse compilado de contos, ficamos sabendo um pouco das crenças dos Ainus, o modo como eles tratavam os vivos e os mortos. A crença animista de que a suposta alma imortal das pessoas se junta com os vivos depois dos mortos é expressa aqui também.

Encontrei aqui referências a relatos bíblicos, como uma época em que houve um imenso Dilúvio em toda a Terra com poucos sobreviventes. O livro foi dividido em duas partes: contos de pessoas e contos de “buracos de outro mundo”.

Primeira parte: humanos, deidades e oralidade

A primeira parte do livro tem humanos e deidades como protagonistas. São contos curtos, muitas vezes escritos em menos de meia página. Às vezes, as notas de rodapé do autor possuem mais texto do que o conto em si.

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A linguagem usada por Medeiros é mais pueril, mais terna e infantilizada, refletindo o senso de humor peculiar dos Ainus. O tradutor adaptou o texto de forma simples, permitindo uma leitura fluída e acessível, mantendo termos ainus explicados em notas, o que enriquece a experiência.

Segunda parte: cavernas e o mundo espiritual

A segunda parte também nos apresenta humanos e deidades como protagonistas, mas tudo relacionado a cavernas ou buracos. Alguns contos parecem se repetir com variações sutis.

Aqui a linguagem se torna mais formal e técnica, pois essas cavernas representam, segundo a tradição Ainu, a fronteira entre o mundo espiritual e o mundo dos vivos, abrigando cidades-fantasmas onde os mortos vivem.

Temas recorrentes e paralelos culturais

Na maioria dos contos, os Ainus são retratados como um povo simplório e muitas vezes ingênuo. A perversidade geralmente está ligada a espíritos femininos que seduzem homens e os conduzem à morte nas águas, lembrando sereias de outras culturas.

Encontramos paralelos com mitologias de outros povos: dilúvios, mundo dos mortos, imortalidade da alma, espíritos sedutores e animais sagrados. O diferencial está no profundo respeito à Natureza, vista como a maior herança do povo Ainu.

Natureza, animais sagrados e legado cultural

O livro explica costumes como o Festival do Urso, além da importância de animais sagrados como a Lontra, Coruja, Águia, Corvo, Salmão e Veado. Não há culto a riquezas materiais, mas sim à Natureza.

Hoje existem cerca de 24 mil Ainus puros, concentrados em Hokkaido e ilhas do norte. A cultura Ainu passou a ser ensinada nas escolas japonesas, e Felipe Medeiros conseguiu transportar esse respeito e valorização cultural ao público brasileiro com fidelidade e sensibilidade.

Se você quiser continuar explorando livros que ajudam a entender o Japão para além da cultura dominante e aprofundar esse olhar sobre folclore, história e identidade, te convido a conferir outras resenhas que escrevi para o Toku Blog.

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