Como Shotaro Ishinomori adaptou Miyamoto Musashi
Muitos elementos que hoje reconhecemos no tokusatsu clássico, como o arquétipo do guerreiro solitário, a disciplina marcial e o conflito interno entre força e autocontrole, têm raízes profundas na figura histórica de Miyamoto Musashi.
Não por acaso, esse personagem atravessa mangás, filmes, séries e até narrativas que influenciaram criadores como Shotaro Ishinomori. Sua adaptação em mangá mostra como a vida de Musashi dialoga diretamente com o imaginário que mais tarde moldaria heróis da cultura pop japonesa.
Adaptação em mangá sobre a história de vida de Miyamoto Musashi
Shotaro Ishinomori é um nome que ressoa pelo universo da cultura pop. Criador de muitos heróis, principalmente no gênero tokusatsu (como Kamen Rider, Gorenger, Patrine e entre outros), durante décadas ele levou magia e imaginação para o povo japonês e, indiretamente, para diversos povos do mundo.
O Brasil, claro, foi um dos países premiados com suas criações. O que algumas pessoas não sabem (embora a maioria, eu acredito que saiba…) é que Ishinomori era um excelente mangaká. Antes de colocar os heróis nas telas, ele os colocava em quadrinhos. E foi isso que o popularizou entre os jovens da década de 1970.
A encomenda do mangá e o peso do personagem
Musashi foi encomendado pra ele pela revista Kibou no Tomo em 1971. Foi lançado em 5 capítulos e nos mostrou uma nova faceta do importante guerreiro pela visão do rei dos mangás. Ainda assinando como ISHInoMori, o autor soube levar equilíbrio entre drama, humor e ação em quadrinhos de tirar o fôlego.
Ainda sobre o personagem, o herói permeia no imaginário do povo japonês e está presente em muitos quadrinhos, livros, filmes e séries com a temática jidageiki. E a história de Musashi pelas mãos do mestre é só mais uma gota no imenso oceano que o personagem representa para o japonês moderno. Existem inúmeras formas de explorar o universo desse herói lendário.
Existem diversas fontes de entretenimento para absorvermos a importância que o personagem representa. A prova viva é que Musashi é um nome que perdura até os dias de hoje.
Traço, humor e público-alvo
Ishinomori foi um desenhista nato. A ideia aqui é apresentar um Musashi arisco e que, a medida que as páginas forem passando, ele aceita ser domesticado. Aqui nesse mangá, embora tenha fortes cenas de violência, o alvo do mangá (no Japão de 1971) eram as crianças. Podemos ver isso num traço puro que o desenhista fez. Os personagens são, em muitos casos, desenhados de forma caricata e existem MUITOS momentos de humor. E isso é bom. O humor japonês é simplório. Mas relevante e engraçado.
E o mangá me rendeu ótimas gargalhadas em alguns momentos. Isso foi eficiente, pois deu leveza num texto que é considerado denso, devido à popularidade do personagem, que é um dos maiores heróis japoneses. E sim. O leitor atento vai encontrar alguns desenhos que mostram gagues visuais (tipo desenhos Super Deformation, ou SD).
E algumas dessas gagues são hilárias (como a cena da madrasta caindo numa travessura do jovem Musashi, que me fez rir por longos minutos). Embora o roteiro trabalhe com a densidade do personagem, nada impede de sermos premiados por bons momentos de humor.
Drama, liberdade criativa e comparações
Embora tenha humor, o foco é no drama sobre a vida do nosso herói. Sabemos que a vida de Musashi não foi fácil. E vimos isso em muitas plataformas, como nos quadrinhos de Vagabond e nos filmes estrelados por Toshiro Mifune na década de 1960.
O mangaka deu margem para ter liberdade criativa. Alguns personagens populares em outras plataformas (como Akemi, Matahachi e Oko) foram abolidos nessa versão da história. Ainda fomos apresentados a outros personagens, como Gonnosuke e seu queixo protuberante, que rendeu outros momentos de humor para a trama.
A virtude da paciência e os duelos
O Musashi nessa versão nos é apresentado com alguém irredutível. Ele evita combates em alguns momentos. Em outros, ele aceita convites para um duelo. O que vemos aqui é a questão de uma particularidade que o autor explorou em muitos momentos. A virtude da Paciência por parte do Musashi, que fazia os adversários esperar pela sua chegada para depois agir.
Essa nuance foram bem caprichadas e o desespero desenhado no rosto dos adversários ficou bem evidente. Afinal, na época, muitos espadachins queriam experimentar um combate com nosso herói.
O Livro dos Cinco Anéis e a densidade cultural
Interessante que tivemos introduções e resumos ao livro mais famoso do guerreiro. O famoso Livro dos Cinco Anéis (que foi lançado no Brasil em diversas traduções e editoras) só mostra o quão profundo é o tema. Não é um livro para ser lido de qualquer jeito.
Essa introdução só mostra que O Livro dos Cinco Anéis não é um livro para ser lido como fonte de entretenimento. Tem que ter uma disposição profunda para com ele. O capítulo final no mangá nos explica o porquê de ser assim. O mangá funciona para quem tem disposição com esse elemento da Densidade. Cultura japonesa é mais do que animes, games, mangás e tokusatsu. Tem muito mais envolvido.
E esse mangá só prova que Ishinomori não estava brincando em levar densidade com bons momentos de humor. Se o leitor procurar ler O Livro dos Cinco Anéis após o mangá, fique ciente que não será uma leitura fácil, embora o resumo no mangá já nos ajuda a ter uma compreensão maior do que nos foi apresentado.
Considerações finais
Miyamoto Musashi é uma obra prima, como bom traço que flerta entre o seinen e o shonen que visa agradar todas as idades. Apesar de alguns momentos de violência crassa, não é nada alarmante. Ishinomori-sensei nos presenteou com uma obra prima.
Não se assustem com o volume de páginas (500, para ser exato). O leitor mais atento pode se acostumar com a leitura, que flui de maneira rápida e você NEM percebe que leu 500 páginas em menos de 5 horas. E detalhe: se for um leitor atento, nem perderá o fio da meada da história, ainda mais para quem é acostumado com o universo de Miyamoto Musashi. Shobari!
Se você curte esse tipo de resenha que cruza mangá, história japonesa e cultura pop, recomendo conferir outras análises que publiquei aqui no Toku Blog. Tem bastante material que dialoga diretamente com tokusatsu, jidageki e figuras históricas que moldaram esse imaginário.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



