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Lobo Solitário: o mangá mais brutal e filosófico do Japão feudal

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Assim como muitas produções de tokusatsu, Lobo Solitário ajudou a moldar no imaginário ocidental a figura do samurai como um guerreiro trágico, violento e profundamente ligado a códigos de honra e vingança.

O mangá narra as andanças do ex-executor do governo com seu pequeno filho para se vingar de uma facção.

Primeiro contato e descoberta da obra

Desde a minha juventude, quando descobri a franquia de games Samurai Spirits (Shodown no Ocidente), eu via o mundo dos samurais com certo vigor. Já gostava desde quando assistia Lion Man (um dos meus tokusatsu favoritos).

Quando eu descobri Lobo Solitário, foi através de uma cópia de fita VHS que meu (futuro) cunhado me passou. Depois, um amigo nosso em comum me passou a informação de que esses filmes de Lobo Solitário eram baseado num “gibi japonês” (mangá).

Desde que fiquei sabendo disso, queria achar um jeito de ter esses “gibis” sobre o personagem. Só fui ter a coleção completa em Outubro desse ano de 2024 e, depois de ler um livro de uranografia, em 2 meses eu li os 28 volumes de Lobo Solitário (sim…. tenho tempo livre….. por isso, me empenhei nisso).

Duas fases narrativas bem definidas

Eu diria que Lobo Solitário teve duas fases. A primeira abrange os 12 primeiros volumes, onde o “Lobo Solitário” faz alguns serviços sem conexão entre si. São histórias simples, sem margem para continuação, mas que, de alguma forma, estariam se conectando na segunda parte.

Parece um paradoxo, né? Mas histórias contadas magistralmente por Kazuo Koike que aparentemente não se tinham conexão acabam se ligando a um pequeno detalhe, que nos é revelado a partir da sequência de histórias do volume 13 em diante.

A narrativa é precisa e não consegue nos entediar. A narrativa de Koike aliada ao charme dos desenhos rebuscados e certeiros de Goseki faz da leitura prazerosa. Cada personagem apresentado nesses 28 volumes se mostrou de suma importância. E todos foram construídos por Koike para que tivessem relevância em cada momento da história.

Daigoro, o verdadeiro destaque da obra

Koike criou personagens humanos, com acertos e falhas. E todos com traços de personalidade marcantes. Mas o maior destaque mesmo nem é o Itto Ogami e seu antagonista, Retsudô Yagiu. Mas o pequeno Daigoro, filho do nosso protagonista, que protagonizou os melhores momentos da trama até culminar no seu clímax.

O pequeno, para uma criança de 3 anos, possui uma média intelectual e de compreensão fora do normal para alguém dessa idade. Ele sabe cozinhar, fazer curativos, bater, se defender, não se mostrando um menino indefeso. E ele ajudou o pai em muitas missões.

Incrível como um personagem de idade tão pequena possa ter uma profundidade maior que os do protagonista e antagonista. Ele representou o quão difícil era para uma criança viver na época do Japão Feudal. Ouso dizer que Daigoro protagonizou mais histórias que seu pai, salvo um erro de cálculo.

Mas a capacidade de Daigoro em sobreviver às mazelas do Japão do Período Tokugawa nos mostrou que a preparação de Koike para o personagem foi de experiência pessoal. Daigoro não tinha espaço para ser uma criança normal. Ele tinha responsabilidades desde seus 3 anos.

Itto Ogami, Meifumadô e a ausência de romantização

A ideia de contraste com as outras crianças apresentadas mostra que Daigoro foi o melhor personagem apresentado por Koike, não que Itto e Retsudô também não tenham suas importâncias.

A construção de Itto é de ser uma pessoa fria, sem sentimentos. Afinal, tanto ele como Daigoro viviam no Meifumadô. O que é o Meifumadô? É o estilo de vida adotado pelo pai e pelo filho trilhando em pleno Japão Feudal.

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É interessante notar que, devido a esse estilo de vida, a personalidade seca de Itto o deixou impiedoso, não perdoando pessoas de nenhum tipo (sim…. embora seja provável que tenha sido comum no Japão Feudal, o ronin não perdoava nem crianças nas tramas).

Aliás, as tramas mostradas nesses 28 volumes mostram que não era fácil viver no Japão do período Tokugawa. Ao contrário de outras produções para o público mais jovem (os famosos “shonen”) com temática “samurai”, aqui não houve espaço para a construção de uma forma romantizada dos ronins da época.

Seinen puro: violência, sexualidade e crueza

Muito pelo contrário. A forma como a humanização de Itto foi retratada faz com que tenhamos certa repulsa por Itto em alguns momentos e também sentimos ternura em outros.

Ou seja, não existe espaço aqui para uma forma romantizada de ronins. Vimos isso anos mais tarde em uma trama semelhante tipo Vagabond, onde também mostrou a realidade crua do Japão Feudal em seus personagens.

Afinal, estamos falando de uma obra de demografia seinen, ou seja, aqueles quadrinhos que não permitem que crianças e adolescentes o leiam. Afinal, tem muitas cenas de nudez, sexo explícito, sodomia e violência contra qualquer pessoa.

Mas por se tratar de uma leitura para o público adulto, a arte rebuscada de Kojike nos permite ver certas cenas que são próprias pra gente, sem nenhuma censura, mas que incomodaria pessoas mais sensíveis.

A edição brasileira e a experiência de leitura

A edição que eu li foi a dos anos 2000 da Panini. As páginas são de papel jornal. É interessante notar que a Panini relançou os volumes na década passada com um papel melhor. Mas a mesma qualidade da tradução da narração, do glossário e das matérias adicionais estava presente.

A tradução, até onde os kanjis permitiam, não desnorteou o andamento da leitura. Muito pelo contrário, tudo foi bem compreensivo e não deu margem para algo sugestivo.

A ideia de colocar notas apresentando também alguns elementos da filosofia do bushidô deixou a leitura mais rica. Muitas informações foram acrescentadas. Ficamos conhecendo um pouco da história do Japão Feudal nessas matérias.

Os desenhos de Kojike nos apresentaram um Japão atípico do que nos é apresentado em outras obras, mas que não deixa de ser esteticamente belo. E o cuidado da Panini em resgatar um pouco desse Japão deixa a obra mais majestosa.

Considerações finais

O leitor fica imerso no que é apresentado tanto nas gravuras como nas narrativas. Se ler os mangás com uma boa trilha sonora temática (as trilhas sonoras das franquias Genji – Dawn of Samurai, Ghost of Tsushima, Last Samurai e Samurai Spirits são ótimas para deixar o leitor submerso na leitura), a experiência será melhor. Foi o que aconteceu comigo.

Lobo Solitário não é uma leitura para qualquer leitor. Tem que estar preparado para ler um mangá que não é típico dos que foram lançados aqui.

Se você for procurar em Lobo Solitário uma narrativa padrão de “lutinhas mirabolantes e pirotécnicas” vai se decepcionar e muito. Lobo Solitário é um mangá que contém uma narrativa filosófica que nos apresenta um pouco, mesmo que de forma fictícia, o conceito de vida de guerreiros japoneses do passado.

Tudo é apresentado de forma nua e crua. Não tem espaço para floreios. E para encerrar, só digo uma coisa: que final impactante!!

Para mais resenhas sobre mangás clássicos, tokusatsu e cultura japonesa sem romantização, confira outros textos meus publicados no Toku Blog.

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