Japão Moderno existente na tradição, guerra, economia e cultura pop
Antes de falar de Japão moderno, eu sempre penso em como o tokusatsu ajudou a moldar essa imagem híbrida que temos do país. Ao mesmo tempo em que vemos templos, samurais e tradição, também enxergamos cidades futuristas, tecnologia e heróis metálicos como Jaspion ou Ultraman. Essa tensão entre passado e futuro é justamente o que Christopher Goto-Jones tenta destrinchar ao analisar o Japão contemporâneo.
Análise geo-política do Japão moderno
O que é ser moderno? É renegar o seu passado ou abraçar o futuro? É mudar a rotina tradicional a que está acostumada ou se entregar à praticidade? O antropólogo holandês Goto-Jones resolve responder essas perguntas em 180 páginas de puro suco do que é mais interessante sobre a contemporaneidade do Japão.
Quando falamos ou apontamos para o Japão, nos vem um misto do que é o tradicional (gueixas e ainus) com o que é moderno (shinkansen e tokusatsu).
A visão do mundo sobre o Extremo Oriente
Goto-Jones já começa com seu capítulo introdutório analisando a visão que o mundo tinha do Extremo Oriente com a realização da Copa do Mundo de 2002. Antes da Copa, nenhum país asiático tinha sediado.
Quando a FIFA resolveu fazer a Copa nos dois países em conjunto, a ideia era expandir o território e sair da zona de conforto da América do Norte e da Europa. O começo foi analisar esses contrastes com o que é antigo e o que é contemporâneo, ao apresentar ao leitor um panorama do que queremos enxergar nos dois países.
Um livro para além do público europeu
Claro! O livro foi escrito para o europeu conhecer um pouco da história da Terra do Sol Nascente. Mas nada impede que o brasileiro da nossa geração, acostumado com tokusatsu como Jaspion, Jiraya e Flashman no programa da Angélica na Manchete e outros produtos japoneses como Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon, além do fato do Brasil abrigar as duas maiores colônias japonesas do mundo (São Paulo e Paraná), possa apreciar essa leitura.
Sim! Apesar da origem do autor, o livro pode ser lido por todos os interessados pelo que o Japão representa hoje. O autor foi bem modesto ao dizer que o livro PODE ter desencontro de informação. Mas ao analisar o texto, encontrei muita coerência.
O autor não poupou críticas em determinados momentos da história política do país e expôs as falhas dos governantes que levaram o Japão ao colapso militar.
A modernização e a Restauração Meiji
O primeiro capítulo foi dedicado ao início da “modernização japonesa” por intermédio da Restauração Meiji na segunda metade do século XIX. Sim! Depois de mais de 250 anos isolado do mundo, o Japão foi praticamente forçado a abrir seus portos para o comodoro Mathew Perry, que chegou nas águas japonesas com sua frota de “navios negros” a mando do presidente estadunidense que queria fazer negócios com a nação nipônica.
Claro! Os japoneses ficaram em alvoroça, tanto da parte da classe militar, como política e comercial. Mas com o poder supremo devolvido ao Imperador Meiji, o Japão cedeu a essa onda de ocidentalização e, à medida que o restante do século XIX foi avançando, o país foi absorvendo um pouco da tecnologia e da cultura do Ocidente para se favorecer.
E isso fez com que o país ganhasse uma ascensão fora do comum e granjeasse tanto respeito como desprezo de nações ocidentais.
Militarização e imperialismo
Depois veio contando um pouco da modernização militar e de como o país deixou de ser uma nação subsidiária para se tornar um povo guerreiro, com forte tendência imperialista na região do Extremo Oriente.
O Japão pegou pesado e o autor não poupou citações a esse espírito feroz do antigo Japão. Sim! Como em muitas publicações do gênero, sabemos que o Japão de 1945 pra baixo não foi uma nação mansa.
A ideia de que todo país circunvizinho devia se curvar diante do Imperador Japonês fez com que o ânimo dos japoneses crescesse, se tornando uma nação soberba e exacerbadamente patriota. Primeiro tinha que vir a nação. Depois o povo.
Isso refletiu no caráter militar do país, que usou e abusou do espírito do povo. A ferocidade do Japão em querer dominar é contrastada quando o país sofre a grande derrota em 1945 com a queda das duas bombas em Agosto daquele ano e na renúncia da divindade da família imperial.
Por causa disso, o Japão ficou à mercê dos EUA por duas décadas até se reerguer. Tudo isso foi relatado por Goto-Jones.
Ascensão econômica e cultura otaku
Depois nos é relatada a ascensão econômica do país. Dos anos 1960 até 1980, o crescimento econômico transformou o Japão num país emergente. E isso fez com que o Japão chamasse a atenção do resto do mundo.
O crescimento de sua economia foi tão acelerado que em pouco tempo, produtos japoneses tomaram conta das prateleiras mundiais. Desde meios aeronáuticos como aviões potentes até eletrodomésticos simples.
O processo de desmilitarização do país ajudou nesse crescimento econômico, tornando o Japão uma nação pacífica. E esse pacifismo revoltou alguns pensadores, mostrando insatisfação com a falta de patriotismo, fazendo com que eles cometessem seppuku diante da mídia.
Quando chega na parte dos anos 1980, foi mostrada a participação da cultura otaku (do ponto de vista europeu, ou seja, a forma pejorativa da palavra). Até a importância cultural deles foi citada para mostrar o quanto ajudaram no crescimento econômico do país.
O Japão do futuro
O livro se encerra fazendo uma breve análise de como será um utópico Japão. Uma nação que se recusa a rejuvenescer e que está envelhecendo rápido.
Mesmo se tornando a terceira maior economia atualmente (perdendo para os EUA e para a China), o Japão continua exportando parte da sua cultura na música, literatura, cinema e TV (em animes, tokusatsu e doramas) e atiçando o consumismo da população.
O autor foi consciente ao relatar que o japonês atual está recusando o “emprego vitalício” para se tornar “free-lancer” só para poder ter tempo para si.
A cultura da antissocialização que está crescendo vertiginosamente, como a dos otaku e de seitas religiosas como a Aum Shinrikyô, tem ajudado no declínio da natalidade do país.
O autor se mostrou imparcial nessas citações ao relatar fatos concernentes com a nova realidade japonesa. E se o “otaku” médio brasileiro se sentir afetado pelo uso pejorativo da expressão, relevem. Como dito, o termo é usado de forma diferente no Japão e em outras partes do mundo.
E por apresentar essas diferenças é que o livro se torna uma atração agradável para o leitor sedento de informação a respeito de um dos países mais emblemáticos do mundo.
Considerações finais
Japão Moderno – Uma Breve Introdução é um livro que ajuda a entender as engrenagens históricas, políticas e culturais que moldaram o país que hoje produz desde trens-bala até séries de tokusatsu que marcaram gerações.
Se você gosta de compreender o Japão para além da cultura pop, mas sem ignorar sua influência global, essa leitura vale a pena.
E se você curte esse tipo de análise que conecta tradição, política e cultura japonesa, eu te convido a conferir as outras resenhas que já publiquei aqui no Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



