Cultura pop de luto: Saki Hijiri falece aos 73 anos
O universo do tokusatsu, da ficção científica e do cinema fantástico japonês perdeu uma de suas figuras mais respeitadas. Saki Hijiri faleceu em 1º de agosto de 2025, aos 73 anos, após uma longa batalha contra o câncer. A notícia foi confirmada por familiares e amigos próximos por meio das redes sociais. A cerimônia de despedida foi reservada à família.
Nascido em Kyoto em 1952, Hijiri teve uma trajetória marcada pela paixão e dedicação à cultura pop japonesa. Ainda jovem, mudou-se para Tóquio e iniciou sua carreira trabalhando com trilhas sonoras teatrais. Mas foi como editor e roteirista que se consolidou, tornando-se um dos principais nomes na divulgação e estruturação do gênero tokusatsu como conhecemos hoje.
A construção de um legado
Saki Hijiri foi pioneiro em diversos aspectos. Editou fanzines de terror e ficção científica nos anos 70 e, mais tarde, envolveu-se diretamente com produções da Toei, como Spider-Man (1978) e Battle Fever J (1979). Também contribuiu com roteiros para a animação Akuu Daisakusen Srungle (1983).
Sua maior marca, no entanto, foi à frente da revista Uchuusen, da editora Asahi Sonorama, da qual foi o primeiro editor-chefe. Lançada em 1980, a publicação foi um divisor de águas na cobertura especializada de tokusatsu, anime e ficção científica. Por quase duas décadas, Hijiri não apenas guiou o conteúdo da revista, mas formou gerações de fãs e profissionais.
Além da Uchuusen, também trabalhou com a revista Televi-kun, graças à recomendação do então editor-chefe Hisashi Yasui, o que ampliou ainda mais sua influência no setor editorial voltado ao público infantojuvenil.
Um mentor e entusiasta incansável
O impacto de Hijiri não se limitou às páginas das revistas. Ele também era conhecido por sua generosidade com os mais jovens e iniciantes no meio. Um de seus colegas relembrou nas redes sociais como, ainda aos 19 anos, foi recebido por Hijiri nos escritórios da Asahi Sonorama. Sem qualquer fama ou currículo, teve a oportunidade de conhecer nomes importantes graças à ponte construída por Hijiri, um gesto que mudaria o rumo de sua vida.
Esse espírito acolhedor e apaixonado se manifestava também em encontros informais em sua casa, onde histórias de terror, discussões sobre cultura japonesa e relatos de eventos internacionais preenchiam as noites. Em meio a pilhas de materiais de referência, Hijiri reunia amigos, criadores e fãs em rodas de conversa que mesclavam nostalgia e descoberta.

Entre o otimismo e a resistência
Mesmo enfrentando o câncer em diversos órgãos, Hijiri não deixou de viver com intensidade. Recusou-se a abandonar velhos hábitos como o cigarro, dizendo que “viveria até os 100 anos”. Costumava citar os benefícios do consumo de natto como justificativa para sua força – uma referência bem-humorada à tradição culinária de sua terra natal, Kyoto.
Seu otimismo era uma marca registrada. Quando amigos passavam por dificuldades profissionais ou pessoais, Hijiri dizia com naturalidade: “Vai dar tudo certo.” Não era uma frase vazia – era um reflexo de sua própria filosofia de vida, moldada por décadas de desafios e conquistas no meio cultural japonês.
Uma perda que reverbera
O falecimento de Saki Hijiri é uma perda profunda para o meio editorial e para os fãs de tokusatsu, anime e ficção científica. Em tempos recentes, ele havia retomado com entusiasmo suas atividades com fanzines, mesmo diante das dificuldades do mercado editorial japonês pós-pandemia.
Seu trabalho com o grupo Happy Monster e a presença constante em eventos como o Mandarake Zines Expo e o reencontro da Uchuusen em Jinbochou mostram que, até o fim, permaneceu conectado à comunidade que ajudou a construir.
Hijiri deixa um legado extenso, que pode ser visto não apenas em revistas e roteiros, mas também em vídeos disponíveis no YouTube e nas edições de seus fanzines que continuam circulando por lojas especializadas como a Valkyrie Store e a Jimbochou Neo Bookstore.
Para muitos, Saki Hijiri foi mais que um editor ou roteirista. Foi um mestre, um amigo, um entusiasta que viveu com intensidade e fez do amor pela cultura pop uma missão. Seu carisma, conhecimento e dedicação fizeram dele uma figura única, cuja ausência será sentida por muito tempo.
Thiago Halleck é músico, tatuador, fã de tokusatsu e redator do Toku Blog.


