Cultura Japonesa: entendendo o Japão e seus valores
Muita gente que consome tokusatsu costuma associar o Japão apenas a heróis coloridos, monstros gigantes e efeitos especiais práticos. Mas por trás de cada série, existe um pano de fundo cultural que molda valores como disciplina, coletividade e perseverança. Entender essas raízes ajuda a enxergar além da fantasia.
É nesse ponto que obras como Cultura Japonesa – Entendendo o Japão se tornam interessantes. O livro tenta explicar comportamentos atuais da sociedade japonesa que, de certa forma, também influenciam o espírito presente em muitas produções que tanto admiramos.
Uma análise sobre acontecimentos atuais que afetam a cultura japonesa
Essa análise foi curta. 53 páginas no total no idioma japonês e 53 no idioma português. Mas, qual foi o real propósito desse livro curto?
Exaltar aspectos humanos atrelados ao interno de um povo que foi no passado uma nação guerreira e que hoje prega o pacifismo. Exaltar aspectos humanos é complicado. Tem que ter muito tato para não usarmos palavras para massagear o ego do povo.
Mas o autor soube retratar no texto ideias convenientes para a formação cultural e do caráter do povo japonês em cinco aspectos.
A união diante das tragédias
O primeiro aspecto foi retratar a união do povo japonês diante de grandes cataclismas. O exemplo citado no livro foi o do Tsunami que atingiu a região de Fukushima em 2011.
Foi uma fatalidade. Várias vítimas. Mas os exemplos de abnegação e resiliência, nutridos por uma forte onda de empatia e respeito pelos que sofreram a dor da perda de bens materiais e emocionais, mostraram do que o japonês é capaz.
Os japoneses cuidaram e muito daqueles que sofreram com a catástrofe. A preparação do povo japonês para enfrentar a ira da Natureza também foi digno de nota.
Embora muitos ocidentais vejam o japonês como um povo individualista no cotidiano, o autor relatou que quando há o aperto, cada cidadão pensa no coletivo. A ausência de saques em situações como essa foi usada como exemplo de educação e responsabilidade social.
Educação e formação do caráter
O segundo ponto aborda por que o japonês aprendeu a ser tão educado e responsável.
Boa parte vem do decreto do Imperador Meiji no final do século XIX que estimulou o acesso universal à educação. No Japão Feudal, apenas classes privilegiadas tinham esse direito.
Com a resolução imposta pelo governo Meiji, homens e mulheres passaram a ter acesso ao conhecimento. A absorção do saber ocidental ajudou na formação de uma nova geração.
Vitórias militares e crescimento institucional contribuíram para mudar a imagem internacional do Japão, que antes era desprezado por potências ocidentais.
O olhar de Albert Einstein
O terceiro tomo é dedicado às impressões de Albert Einstein sobre o povo japonês.
Baseado no livro “Einstein Discorre Sobre a Teoria da Relatividade no Japão”, o físico relatou admiração pelo respeito e pela postura dos japoneses durante suas palestras.
Ele destacou a “gula pelo saber” do povo e comentou sobre o famoso sorriso japonês, que muitas vezes esconde sentimentos.
Einstein também elogiou a facilidade de aprendizado dos japoneses, embora tenha lamentado a preferência pelo conhecimento ocidental em detrimento do oriental.
A figura feminina
O quarto tomo concentra-se na importância da mulher na sociedade japonesa.
Baseado no livro Bushido das Mulheres, narra a trajetória de Setsu, criada com disciplina, responsabilidade e orientação firme dos pais.
A obra mostra conflitos juvenis, amadurecimento e a construção da responsabilidade como caminho para a liberdade.
O texto reforça a valorização do trabalho e das boas amizades como pilares da formação feminina.
Trabalho e longevidade empresarial
O quinto tomo aborda o trabalho como valor central.
O autor destaca que as empresas mais antigas do mundo estão no Japão e analisa como elas se adaptaram a tempos difíceis.
Há entusiasmo ao tratar da resiliência empresarial e da capacidade de usar recursos da natureza a favor da produtividade.
O crescimento das empresas japonesas em território nacional e estrangeiro é apontado como reflexo dessa mentalidade.
A colônia Hirano
O sexto e último tomo narra o início da colônia japonesa de Hirano em 1915.
Mostra as dificuldades enfrentadas na Mata Atlântica, como malária e clima hostil. Umpei Hirano liderou a iniciativa, mas faleceu precocemente.
Em três meses, 82 nikkeis morreram por doenças tropicais. Ainda assim, a colônia resistiu.
Em 2015, comemorou-se o centenário da colônia, motivo central da publicação.
Considerações finais
O livro é curto, bilíngue e ilustrado com fotos históricas da colônia Hirano.
Mesmo com relatos tristes, é uma obra que provoca reflexão. Não é um livro para quem quer apenas entretenimento.
Ele mostra que o Japão vai além de animes, tokusatsu, mangás e doramas. É um povo disciplinado, responsável e resiliente, que aprendeu com seus erros históricos.
Enfim… viva o Japão.
Se você gosta de entender o Japão além da cultura pop e quer conferir mais análises como essa, eu te convido a explorar as outras resenhas aqui no Toku Blog. Sempre tem algo novo para descobrir.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



