Contos Tradicionais Japoneses Sobre Casamentos Fantásticos
Muito antes de casamentos entre humanos e entidades ganharem versões estilizadas em séries, animes ou até em produções de tokusatsu que exploram o imaginário sobrenatural japonês, essas histórias já circulavam na tradição oral do país. Contos Tradicionais Japoneses sobre Casamentos Fantásticos resgata esse material ancestral que ajudou a moldar o folclore do Japão.
Reunião de contos de fadas japoneses sobre casamentos que passaram de geração para geração de acordo com uma região do Japão.
Casamentos entre humanos e entidades folclóricas
Namekata-san cria aqui uma coletânea de contos fantásticos sobre casamentos entre humanos e entidades folclóricas. Na maioria dos casos, as entidades são representadas por criaturas no sexo feminino, inclusive as divindades celestiais. A ideia dessa coletânea é reunir o máximo de contos em todas as suas versões possíveis, dependendo da região do Japão onde ela é contada. Ou seja, nesse livro, o leitor vai encontrar de 3 pra 4 versões do mesmo conto, que é contado em região diferente do país.
Por exemplo, a história da Grua (espécie de Garça ou como os japoneses chamam, de “Tsuru”) é contada em cinco versões de regiões diferentes do Japão. Mas a essência da história é a mesma para todas: Uma grua encantada é salva de armadilhas por um homem pobre que muda de forma que arranca as suas penas para fazer um tecido magnífico para enriquecer o amado.
O feminino como figura central
Nakemata-san teve todo o cuidado de contar a mesma história em diversas versões sem parecer maçante. A ideia desses contos é exaltar a beleza e a sagacidade do feminino. Numa época em que era um martírio ser mulher no Japão, ver como a figura do feminino é retratada como alguém sempre sendo superior, mesmo na aparente posição submissa apresentada nas histórias é, digamos, conveniente.
Até mesmo as entidades são transformadas em figuras femininas. É muito raro encontrar nesses contos, o exemplo da figura masculina como alguém sendo bem sucedido (contei uns dois ou três contos assim nos mais de 40). Mas são contos de fadas japoneses.
As entidades folclóricas são apresentadas como seres superiores, mesmo com suas deficiências comuns aos seres humanos (como sofrerem abusos e enfermidades). Mesmo assim, a superioridade do feminino em cima do masculino é algo notável de se ver.
Estrutura, leitura e edição bilíngue
As narrativas são curtas. O leitor consegue ler muita coisa de uma vez só e não consegue se perder. Uma curiosidade interessante nessa versão do livro é que ele é bilíngüe. Como assim? Bem… o leitor encontrará um conto no idioma português e depois do texto concluído, vai encontrar o mesmo conto escrito em nihongo (o idioma japonês).
Para quem está estudando esse idioma e pretende estudar kanjis, esse livro pode ser de ajuda. Além de uma linguagem simples na escrita, os kanjis possuem o que chamamos de “furigana” (leitura em hiragana em cima dos kanjis para facilitar a leitura). Para quem conseguiu decorar Hiragana e Katakana, essa parte da leitura vai ser ótima para aprender a decorar Kanji.
A presença Ainu e o resgate histórico
Uma parte que deixou a coletânea rica, além do fato de ser bilíngüe, foi um conto Ainu. Os Ainus foram os primeiros habitantes do Japão e os remanescentes estão restritos a região de Hokkaido, no extremo norte. Essa preocupação em resgatar os primórdios da civilização japonesa deixou o trabalho de Nakemata-san primoroso, visto que os Ainus, durante muitos séculos, foram desprezados pela sociedade japonesa moderna. Nesse ponto, foi um acerto gigante.
Uma coletânea rica e acessível
A coletânea é ótima para quem gosta de folclore japonês e pode enriquecer o vocabulário no idioma para quem está estudando. Possuem belas e suntuosas ilustrações que deixou o livro mais rico do que já é. Para quem procura mergulhar um pouco no mundo fantástico do povo japonês, esse livro é uma boa pedida.
Para saber mais sobre folclore japonês, contos tradicionais e obras que influenciam o imaginário da cultura pop do Japão, clique aqui para conferir mais resenhas que escrevi para o Toku Blog.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



