A Besta (Shishi): quando uma releitura de Musashi dá errado
Quem acompanha tokusatsu já viu diversas releituras de figuras históricas japonesas. Samurais são retratados como heróis, mentores ou símbolos de honra, muitas vezes inspirados em personagens reais que atravessaram os séculos. Entre esses nomes, poucos são tão reverenciados quanto Miyamoto Musashi.
Por isso, quando uma obra decide revisitar a juventude dessa figura quase mítica, a expectativa naturalmente é alta. Foi o que aconteceu com A Besta (Shishi), mangá que prometia uma nova visão sobre Musashi, mas acabou gerando forte rejeição no Japão.
A Besta: história sobre a juventude de Musashi
Hideki Mori foi considerado “herdeiro e sucessor” de Kazuo Koike. E, realmente, ele tem talento. Quando A Besta foi lançado, a ideia era ser uma história longa sobre a juventude de Musashi.
Com um início promissor, A Besta tinha tudo para dar certo, mas foi errando à medida que os capítulos foram avançando. A história de Musashi é rica e já rendeu muitas adaptações majestosas.
Apesar do talento de Mori, Shishi foi cancelada no terceiro capítulo e se encerrou na quarta.
Por que foi cancelada?
Mas, por que foi cancelada uma história tão promissora? Por que o público japonês condenou a obra, mesmo com desenhos artísticos tão belos?
Bem… só quem leu os capítulos entenderá a questão. Mas tem muita coisa ali que devia ser evitada.
A figura de Musashi no Japão beira ao sagrado. Foi uma persona que cometeu erros, isso é um fato. Mas ele é lembrado pelos ensinamentos que transcenderam os séculos.
Aqui o autor ousou macular essa imagem. E isso fez os japoneses torcerem o nariz para a obra, mesmo o autor admitindo que estava se entregando de corpo e alma para desenhar Shishi.
Um começo promissor que perdeu o rumo
Como disse, a história é promissora. O primeiro capítulo foi bom. Os desenhos apresentaram ótima desculpa para apreciar a arte.
O roteiro foi singular e único. Pelo que foi escrito ali, o autor poderia ter encerrado a trama ali.
Mas ele cismou em desenhar uma história com uma proposta completamente diferente da primeira parte e mudou o rumo.
O excesso que comprometeu a obra
O que vimos nos capítulos adiante foi um festival de cenas de sexo explícito num contexto nada condizente pelo que representa a história.
Nada contra cenas de sexo. Lobo Solitário, Karekano e AoHaRaido possuem cenas de sexo e nudez. Mas o que é apresentado ali é natural, sem ser forçado.
Shishi é um mangá para o público adulto, óbvio. Mas não havia necessidade de colocar vários e vários quadros com forte cunho sexual.
Uma coisa é inserir isso naturalmente e com contexto. Outra é desenhar cenas excessivas sem justificativa narrativa.
O autor transformou uma história rica numa sequência de episódios com apelo sexual exagerado, destoando completamente da proposta inicial.
Situações problemáticas
Como não bastasse o excesso, muitas situações tinham conotação sexual repugnante.
O primeiro traço de desvio foi transformar adolescentes em máquinas de fazer sexo, com exposição explícita de personagens de 12 e 13 anos.
Cenas desnecessárias que poderiam ser evitadas.
Para alguém considerado “herdeiro de Koike”, houve um distanciamento claro do estilo narrativo do mestre.
Não se trata de criticar o talento artístico, mas a condução da trama, que acabou beirando a pornografia.
Incesto e choque cultural
Outra situação complexa foi a relação de incesto declarada na história.
O último tomo foi dedicado quase exclusivamente a cenas de sexo entre dois irmãos menores de idade.
A história de Musashi é valiosa demais para ser reduzida a esse tipo de abordagem.
O autor demonstrou surpresa pelo cancelamento, mas o conteúdo apresentado acabou sendo o principal motivo da rejeição.
Considerações finais
A Besta foi um mangá promissor que perdeu o rumo.
Mexeu com uma figura quase mítica da cultura japonesa e transformou uma narrativa histórica em algo focado excessivamente em erotização.
Nem tudo precisa se resumir a sexo. E foi justamente nesse ponto que a obra falhou.
Da minha parte, achei um mangá desprezível e desnecessário. Mas cabe ao leitor decidir por si.
Se você gosta de análises sinceras sobre mangás históricos, tokusatsu e obras que dialogam com a cultura japonesa, eu te convido a conferir as outras resenhas aqui no Toku Blog. Sempre tem algo novo para refletir.
Rodrigo Pato é jornalista e fã de tokusatsu.



