Roteirista de Ultraman revela memórias e traumas de guerra

Roteirista de Ultraman revela memórias e traumas de guerra

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A história de Ultraman ganhou um novo capítulo com a identificação de um roteiro inédito escrito por Tetsuo Kinjo. O manuscrito, preservado entre documentos de sua família, aborda diretamente a guerra em Okinawa e reúne elementos ligados às experiências vividas pelo autor quando ainda era criança.

Kinjo é considerado uma das mentes centrais na criação do herói e ocupou uma posição decisiva na construção das primeiras produções da franquia. Além de desenvolver conceitos e estruturas narrativas, atuou como principal roteirista de Ultraman e Ultraseven, deixando sua marca em histórias que combinavam ficção científica com conflitos humanos.

Manuscrito permaneceu desconhecido por décadas

Segundo reportagem do Asahi Shimbun, o material foi localizado durante uma pesquisa sobre a vida de Kinjo. Fotografias de páginas manuscritas levaram ao Centro Cultural de Haebaru, instituição que mantém 227 itens do autor depositados por sua família.

O documento encontrado tem 213 folhas de papel pautado para 200 caracteres e foi identificado como um roteiro chamado, em tradução livre, “Soldados Derrotados ao Amanhecer”. O texto nunca havia sido publicado e sua existência era desconhecida até mesmo por Koto Kinjo, neta do roteirista.

A história se passa depois do encerramento dos combates organizados em Okinawa. Três soldados japoneses procuram atravessar o território inimigo para sobreviver. O roteiro apresenta 18 personagens e contém indicações técnicas de imagem, como transições e sobreposições, demonstrando que se tratava de um trabalho estruturado para uma produção audiovisual.

Infância de Tetsuo Kinjo aparece transformada em ficção

Kinjo nasceu em 1938 e tinha seis anos quando enfrentou a guerra no sul de Okinawa. Durante um ataque aéreo em março de 1945, sua mãe, Tsuruko, foi atingida e precisou amputar a parte inferior da perna esquerda. O pai estava mobilizado na Birmânia, enquanto a família permanecia na ilha.

Com o avanço dos combates, o avô decidiu fugir para o sul levando a esposa e o neto. Tsuruko, a filha mais nova e a bisavó de Kinjo permaneceram para trás. Relatos familiares indicam que o menino caminhou descalço, foi protegido pelos avós durante bombardeios e atravessou áreas cobertas por corpos. Mais tarde, a família conseguiu se reencontrar em um campo de prisioneiros.

Essas memórias aparecem reorganizadas no manuscrito. O protagonista recebeu o nome Aoki, o mesmo sobrenome do soldado que socorreu Tsuruko após o ferimento. Outro personagem perdeu um braço em um ataque aéreo ocorrido em Tsukazan. Duas crianças acompanhadas por um idoso têm o pai enviado à Birmânia, em paralelo à situação enfrentada pela família de Kinjo.

O texto também descreve a devastação do campo de batalha e a corrida dos soldados por uma paisagem marcada por crateras, lama e mortos. Embora não exista informação conclusiva sobre quando o roteiro foi escrito, a relação entre suas cenas e as experiências da família indica que Kinjo transformou lembranças pessoais em matéria dramática.

O silêncio de Kinjo sobre a guerra

Apesar de sua trajetória ter sido registrada em biografias e depoimentos, pessoas próximas afirmaram que Kinjo quase nunca falava sobre a guerra. Seu amigo Moriguchi, que o conheceu ainda na escola, disse não se lembrar de conversas sobre o tema, mesmo após anos de convivência entre as famílias.

A biógrafa Yuko Tamashiro considerou que as recordações poderiam ser intensas demais para serem verbalizadas. Em um episódio relatado durante suas pesquisas, Kinjo teria explicado que o medo vivido na infância ainda retornava em determinados momentos. Sua neta também ouviu repetidamente que o assunto quase não era tratado dentro da própria família.

O escritor morreu em 1976, aos 37 anos. A descoberta mostra que, mesmo sem comentar amplamente o que viveu, ele registrou aquelas experiências em uma obra extensa. O manuscrito termina com uma tragédia determinada pelo acaso, refletindo a percepção de que, no campo de batalha, sobreviver ou morrer podia depender de circunstâncias imprevisíveis.

Para conhecer outra história envolvendo um dos nomes fundamentais do tokusatsu, confira o caso em que Eiji Tsuburaya, criador do Ultraman, quase foi preso por causa do Godzilla.

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