Memórias de uma Gueixa

Memórias de uma Gueixa: romance revela lado obscuro do Japão tradicional

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Quem consome cultura japonesa pela via do cinema ou do tokusatsu histórico costuma ver uma imagem estilizada do Japão tradicional. Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, desmonta essa idealização ao apresentar uma narrativa romanceada, porém fundamentada em relatos reais, sobre a vida dura e complexa de uma jovem gueixa na primeira metade do século XX.

Ficção baseada em relatos reais

Para ler esse livro, o leitor deve estar ciente de uma coisa: não é um livro leve.

O escritor estadunidense Arthur Golden criou nesse romance, uma visão nada amistosa de como era a vida das mulheres japonesas pobres antes da Segunda Guerra. O autor deixou claro no posfácio que as histórias que foram narradas por Sayuri são ficção, afinal, nossa protagonista nunca existiu. Mas ele deixou claro que o que acontecia com ela foi baseado em relatos de ex-gueixas que se tornaram amigas dele.

O autor é formado em História da Arte e se especializou na cultura japonesa, onde fazia visitas constantes ao país de sua paixão. Por ele estar muito familiarizado com a cultura japonesa e com relatos vívidos das amigas, podemos ver que o autor soube escrever sobre o lado escuro da cultura japonesa daquela época.

Beleza e crueldade caminham juntas

Lembrando que a cultura, folclore e história do Japão são ricos. Mas revela um lado obscuro que os próprios japoneses fazem questão de maquilar nos dias de hoje.

Memórias de uma Gueixa é um livro belo, ao mesmo tempo que passa crueldade. Tem que ter estômago forte para lê-lo.

Quando a gente vê em filmes, retratos e documentários sobre gueixas, a imagem que temos delas é que são figuras que transcendem a divindade japonesa. Mas para chegarem ao ponto de figuras imponentes e cheio de realeza, as gueixas passavam por um mal-bocado. E a descrição da infância de Sayuri para chegar aonde chegou com sua fama só mostra que a vida dessas figuras emblemáticas não é nada fácil.

Sexualidade precoce e choque cultural

O autor destacou a importância de revelar mais o lado obscuro e cruel do que o lado pomposo.

Não se enganem com alguns momentos de imponência na vida de Sayuri. O autor usou a personagem para revelar uma faceta arredia e selvagem do homem japonês. Principalmente por retratar uma época que é de 100 anos atrás, onde era outra geração e outro tipo de comportamento.

Por exemplo, a questão do “toque” na conotação sexual retratada aqui desde o fim da infância de Sayuri. Sabemos que as mulheres japonesas antes da Segunda Guerra eram forçadas a iniciarem a vida sexual muito cedo por homens mais velhos, principalmente as mais pobres.

Aqui eu diria que o autor pegou leve ao dar o mizuage de Sayuri aos 15. Mas não deixa de ser perturbador esse tipo de conduta para os leitores da geração atual. Hoje esse tipo de prática é considerado uma aberração, inclusive para os próprios japoneses. Mas o autor soube relatar com delicadeza a crueldade que era imposta nessas meninas.

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Rivalidade e construção da protagonista

Também vemos o relato da figura antagônica de Hatsumomo de como era competitivo o mundo das gueixas.

O autor deixou bem claro que existia a rivalidade e que, para se tornar o que Sayuri foi, não era fácil. Tinha obstáculos antes de se tornar aprendiz de gueixa até se tornar uma de fato.

A figura de Hatsumomo funciona como contraponto essencial na formação da protagonista. A dinâmica entre as duas sustenta boa parte da tensão narrativa. Após sua saída de cena, a história perde intensidade e Sayuri parece perder parte de sua determinação, até que surge uma nova rival na reta final.

Estrutura narrativa e ambientação

O livro foi narrado em primeira pessoa. Era como se Sayuri realmente existisse e contou para o repórter sobre as suas memórias.

Esse tipo de narrativa não atrapalhou em nada na leitura da obra e ajudou a nos simpatizarmos mais com a protagonista. As descrições dos cenários fizeram com que nos familiarizássemos com o ambiente. Como se o autor realmente tivesse vivido naquele tempo.

Golden não poupou elogios à paisagem japonesa da época. Porém, ao sugerir que seria melhor abandonar o Japão para viver nos EUA, a narrativa pode soar excessivamente inclinada para uma visão estadunidense. Considerando o contexto histórico e o momento em que o livro foi escrito, talvez uma postura mais neutra tivesse sido mais equilibrada.

Experiência de leitura

Ler o livro com músicas tradicionais japonesas em Shamisen e Koto deixou a experiência mais rica.

A ambientação descrita, aliada a esse tipo de trilha sonora, cria uma imersão interessante. A sensação é de estar transportado para um período histórico distante.

Memórias de uma Gueixa não é um livro simples. É o meio termo entre o simples, o complexo e o verdadeiro. Há momentos desconfortáveis, mas coerentes com o período retratado. O autor deixou claro que, com o avanço da tecnologia e da modernidade, a cultura das gueixas está em declínio. Ainda assim, o romance preserva esse passado com riqueza de detalhes.

Considerações finais

Memórias de uma Gueixa é uma obra impactante. Não romantiza excessivamente o universo das gueixas e também não o trata como mero símbolo folclórico.

É um romance que exige maturidade do leitor. Revela que por trás da estética refinada existia uma realidade dura e marcada por desigualdade social.

Se você gosta de leituras que revelam o lado menos idealizado do Japão tradicional, convido você a conferir outras resenhas que escrevi no Toku Blog.

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